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“Este é o dia em que o Senhor agiu; alegremo-nos e exultemos neste dia” Salmo 118:24 (NVI)
O Salmo 118:24 é um daqueles versículos que muita gente conhece de memória. Ele aparece em músicas, em sermões e até em conversas simples entre cristãos. Mas quando voltamos ao contexto do salmo, percebemos algo interessante: essa frase não nasce de um momento de tranquilidade. Ela surge no meio de uma história marcada por tensão, livramento e uma celebração pública da fidelidade de Deus.
Em outras palavras, a alegria proclamada nesse versículo não é superficial. Ela brota de uma experiência concreta de salvação.
A maioria dos estudiosos, como Derek Kidner, observa que o cenário parece apontar para um período pós-exílio ou para um momento de grande livramento nacional. Não se trata apenas de um sentimento pessoal de gratidão. O que vemos é um reconhecimento coletivo de que Deus interveio de forma extraordinária.
O próprio salmista descreve a intensidade da crise. Ele afirma que as nações o cercaram “como abelhas” (versículo 12), uma imagem forte que comunica pressão, perigo e hostilidade. Mesmo assim, o Senhor o socorreu.
Quando o salmo declara: “Este é o dia que o Senhor fez”, o “dia” não deve ser entendido apenas como um período de 24 horas. Aqui, a palavra aponta para um momento decisivo na história, um dia de intervenção divina.
Historicamente, muitos intérpretes sugerem que o salmo pode ter sido usado na dedicação do Segundo Templo ou em celebrações como a Festa dos Tabernáculos após uma grande vitória. Nesse contexto aparece uma das imagens mais marcantes do texto: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (versículo 22). Essa metáfora carrega a ideia de uma grande inversão. Aquilo que parecia desprezível aos olhos humanos é elevado por Deus ao lugar mais importante da construção.
A declaração “Este é o dia em que o Senhor agiu” carrega, portanto, um peso teológico significativo:
- Ela fala da ação de Deus: O verbo indica que a alegria não nasce de um otimismo ingênuo ou de um temperamento naturalmente positivo. Ela é resposta a um fato: Deus interveio.
- O texto destaca o tema da Pedra Angular: O contexto imediato (versículos 22-23) mostra que o “dia” celebrado é o momento em que Deus reverte expectativas humanas. O que era rejeitado passa a ocupar o centro do projeto divino.
- O versículo apresenta um chamado à alegria: “Alegremo-nos e exultemos”. No hebraico, esses verbos estão no chamado coortativo, que expressa convite e decisão coletiva. Não é apenas um sentimento que aparece espontaneamente. É uma postura assumida diante do que Deus fez.
Charles Spurgeon, em O tesouro de Davi, observa que esse “dia” encontra seu cumprimento mais profundo na ressurreição de Cristo. Foi o momento em que a Pedra rejeitada foi definitivamente estabelecida como o fundamento da Igreja.
O Novo Testamento reforça essa leitura. O Salmo 118 aparece diversas vezes na última semana da vida de Jesus. Quando Ele entra em Jerusalém, a multidão cita esse salmo dizendo: “Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Mateus 21:9). Mais tarde, em Atos 4:11, Pedro, cheio do Espírito Santo, cita diretamente a imagem da pedra rejeitada para confrontar as autoridades religiosas. A mensagem é clara: muitas vezes o agir de Deus contraria a lógica humana.
Algo semelhante ecoa também em Filipenses 4:4, quando Paulo escreve: “Alegrem-se sempre no Senhor”. Para o apóstolo, a alegria cristã não depende das circunstâncias. Ela nasce da certeza de que o Senhor está perto. A igreja primitiva percebeu que a rejeição de Cristo, seguida de sua ressurreição, era o cumprimento pleno daquilo que o Salmo 118 anunciava.
Nesse sentido, o “dia que o Senhor fez” ganha um significado ainda mais profundo: o dia da vitória de Deus sobre o pecado e sobre a morte. A ressurreição transforma sofrimento em redenção e inaugura uma nova esperança para toda a humanidade.
Um detalhe importante no salmo é que a alegria não surge da ausência de problemas. Ela vem depois da luta. O próprio salmista reconhece isso quando diz: “O Senhor me castigou com severidade, mas não me entregou à morte” (Salmo 118:18). Ou seja, o caminho até a vitória passa por disciplina, dor e dependência de Deus.
Aqui encontramos uma verdade espiritual importante: a alegria bíblica não ignora o sofrimento. Ela nasce quando percebemos que Deus continua agindo mesmo no meio das circunstâncias difíceis.
Diante disso, o que o Salmo 118:24 oferece ao cristão de hoje? Primeiro, ele nos lembra que cada dia pode ser vivido como um dom de Deus. Não apenas porque o sol nasceu novamente, mas porque Deus continua presente e ativo na história. Viver o Salmo 118:24 é aprender a treinar o olhar para perceber onde Deus está agindo no meio das coisas comuns. Às vezes, a intervenção divina não aparece em eventos espetaculares, mas no simples fato de continuarmos de pé.
Segundo, o texto nos convida a cultivar uma espiritualidade de gratidão. O salmista olha para trás e reconhece que a vitória não foi fruto apenas de esforço humano. Foi graça. A alegria cristã, nesse sentido, também é um ato de resistência. Em um mundo marcado por medo e incerteza, escolher exultar é afirmar que o fundamento da nossa vida permanece firme. A Pedra angular não se move.
Terceiro, o versículo nos ensina a celebrar as intervenções de Deus, mesmo quando elas vêm depois de períodos difíceis. A fé bíblica não é ingênua. Ela sabe que a vida tem batalhas. Mas também sabe que Deus continua escrevendo a história. Por isso, quando o salmista diz “alegremo-nos”, ele está fazendo um convite coletivo. É como se dissesse: parem um momento, olhem ao redor e percebam o que Deus fez.
Se em algum momento da vida você já se sentiu como “a pedra rejeitado pelos construtores” (no trabalho, na família ou na sociedade), este salmo lembra que Deus tem a última palavra sobre o seu valor e lugar de cada pessoa em sua obra.
O Salmo 118:24 não é apenas uma frase bonita. Ele é o ponto culminante de um testemunho de livramento. Depois de enfrentar oposição, medo e ameaça, o salmista chega a uma conclusão simples, mas profunda: Deus agiu.
Por isso, o dia da intervenção divina se torna um dia de alegria, gratidão e celebração. Essa mesma verdade continua ecoando na vida cristã. Cada vez que Deus nos sustenta, nos restaura ou redireciona nossos caminhos, experimentamos algo desse “dia” de que o salmo fala.
E assim, como o povo de Israel fazia nos pátios do templo, também podemos dizer com confiança: Este é o dia em que o Senhor agiu. Por isso, vale a pena viver com alegria, esperança e gratidão.
Referências:
KIDNER, D. Salmos 73-150: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1981.
SPURGEON, C.H. O Tesouro de Davi: Comentário aos Salmos (Volume 3). São Paulo: Shedd Publicações, 2017.
Sola Scriptura - Solus Christus - Sola gratia - Sola fide e Soli Deo glória
Christós kyrios
