domingo, 25 de janeiro de 2026

A mente de Cristo: onde o chão da vida encontra o Trono da Graça


 Está escrito:

Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus” (Filipenses 2:5, NAA)

 

Filipenses 2:5 reúne uma das exortações mais profundas e, ao mesmo tempo, mais práticas de todo o Novo Testamento. Paulo não convida a igreja a apenas admirar Cristo à distância, como quem observa um modelo inalcançável. Ele chama os cristãos a participarem do modo de pensar de Jesus, a assumirem a sua disposição mental. Trata-se de um convite à transformação profunda – uma mudança que começa na mente, alcança o coração e se traduz em atitudes concretas no cotidiano. Aqui, a teologia elevada e ética prática caminham juntas. 

Para compreender o peso desse chamado, é fundamental olhar o verbo central do texto grego phroneō. Paulo não está falando apenas de um pensamento intelectual ou de uma ideia abstrata. Em outras palavras, não se trata apenas do que se pensa, mas de como se pensa e partir de que valores ser vive. 

Além disso, Paulo não faz uma sugestão opcional. Ele usa o imperativo no tempo presente, indicando uma ação contínua: “continuem mantendo esse modo de pensar”. O versículo 5 funciona como porta de entrada para o grande hino cristológico que segue, especialmente o conceito de Kenosis (v. 7), o esvaziamento de Cristo. A exegese deixa claro que ter a mente de Cristo é, essencialmente, adotar a lógica da humildade voluntária. Cristo não abriu mão de sua divindade, mas renunciou aos seus privilégios em favor do outro. Aqui, Paulo redefine categorias como grandeza, poder e sucesso. A mente de Cristo não é orientada pela autopreservação, mas pela autoentrega.

A igreja de Filipos vivia tensões internas, disputas de status e conflitos relacionais – algo surpreendentemente parecido com o que ainda enfrentamos hoje. O apelo à mente de Cristo surge como uma resposta pastoral a um problema comunitário real. Paulo nos ensina, de forma muito prática, que conflitos não se resolvem apenas com regras; que unidade não nasce da uniformidade; e que transformação acontece quando o caráter de Cristo molda nossas relações.

Assim, ter a mente de Cristo é escolher o caminho da humildade em um mundo competitivo, da obediência em uma cultura autocentrado e do amor sacrificial em uma sociedade marcada pelo ego. Esse tema ecoa por toda Escritura: Romanos 12:2 nos chama à renovação da mente; 1 Coríntios 2:16 afirma que – “Nós temos a mente de Cristo”; Colossenses 3:12-14 nos exorta a nos revestirmos de humildade, mansidão e amor. Esses textos mostram que a mente de Cristo não é um ideal abstrato, mas uma espiritualidade vivida no chão da vida.

Karl Barth afirma que Cristo é a revelação definitiva de Deus e também do verdadeiro ser humano. Ter a mente de Cristo, portanto, é alinhar-se à forma como Deus escolheu revelar a si mesmo – não no domínio, mas na humildade.

Dietrich Bonhoeffer insiste que a encarnação redefine toda a ética cristã. Cristo não apenas ensina o bem; Ele se torna o próprio caminho do bem. A mente de Cristo não é aprendida apenas na contemplação, mas no seguimento concreto, diário, custoso.

Diante disso, é natural que surja a pergunta: em um mundo barulhento, acelerado e competitivo, tão diferente do contexto de Filipos, como o cristão pode desenvolver hoje o mesmo modo de pensar de Cristo?

Sejamos honestos: pensar como Cristo hoje é nadar contra uma correnteza intensa, ruidosa e profundamente egocentrada. Ainda assim, a resposta bíblica é pastoral, realista e bem “pé no chão”:

1. Comece pelo óbvio – e frequentemente esquecido: silêncio intencional. Vivemos cercados por ruídos constantes: notificações, opiniões, polarizações e urgências artificiais. A mente de Cristo não se forma nesse ambiente. Jesus, repetidas vezes, retirava-se para lugares solitários. Isso não era fuga, mas formação. Desenvolver o modo de pensar de Cristo exige criar espaços de silêncio: desligar-se um pouco para ouvir Deus; aprender a não reagir a tudo; permitir que a Palavra fale antes das vozes do mundo.

2. Substitua informação por formação. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, tão pouca transformação. Paulo não escreve: “tenham o mesmo conteúdo de Cristo”, mas “o mesmo modo de pensar”. Isso envolve prática, repetição, convivência. Desenvolvemos a mente de Cristo quando lemos a Bíblia devagar, e não apenas muito; quando oramos não só para pedir, mas para escutar; e quando permitimos que a Escritura confronte nossos valores, em vez de apenas confirmar nossas opiniões. A mente de Cristo se forma quando o evangelho redefine nossos critérios de sucesso, poder e felicidade.

3. Aprender a pensar como Cristo convivendo com Cristo. Ninguém aprende a pensar como Jesus apenas estudando Jesus. Os discípulos aprenderam andando com Ele. Isso implica cultivar uma espiritualidade relacional: oração como diálogo, e não monólogo; leitura bíblica com a pergunta: “O que isso revela sobre o coração de Cristo?”; e, o hábito de perguntar, antes de agir: “Isso reflete o caráter de Jesus?” A mente de Cristo se desenvolve no seguimento diário, não em experiências espirituais isoladas.

4. Resistir à cultura da autopromoção com a prática da humildade. A cultura atual diz: “apareça, vença, imponha-se”. Cristo diz: “esvazie-se, sirva, confie” (Fp 2:6-8). Desenvolver a mente de Cristo exige escolhas contraculturais: servir sem aparecer; ouvir sem preparar a resposta; abrir mão de direitos em nome do amor; valorizar pessoas acima de resultados. Humildade não é pensar manos de si, mas pensar menos em si.

5. Discernir o espírito do tempo sem absorvê-lo. O cristão vive no mundo, mas não pensa segundo o mundo. Paulo exorta: “Examinem tudo, retenham o que é bom” (1 Ts 5:21). Isso requer discernimento espiritual: nem tudo que viraliza edifica; nem toda opinião precisa ser absorvida; nem toda indignação merece reação. A mente de Cristo é firme sem ser agressiva, compassiva sem ser ingênua e fiel sem ser alienada.

Pensar como Cristo hoje não é fácil, mas é profundamente libertador. No fim das contas, não se trata de pensar diferente por rebeldia, mas de pensar como Ele para viver como Ele viveu. Ter o “mesmo modo de pensar de Cristo Jesus” não é um exercício de força de vontade, mas de rendição. É permitir que o Espírito Santo transforme nossos instintos naturais de autopreservação em instintos de amor, serviço e entrega.

Pensar como Cristo é, afinal, viver como Ele viveu – confiando que o caminho da cruz continua sendo o caminho da verdadeira vida.

 

Sola Scriptura - Solus Christus - Sola gratia - Sola fide e Soli Deo glória 

Christós kyrios




domingo, 18 de janeiro de 2026

O abraço de Deus no caos da mente



Está escrito:

Quando as minhas inquietações aumentavam no meu íntimo, o teu consolo trouxe alívio à minha alma” Salmo 94:19 (NVI).


Todos nós conhecemos esse lugar interior onde os pensamentos se atropelam, o coração aperta e a alma parece não encontrar descanso. É justamente desse território humano e espiritual que nasce o Salmo 94:19: o lugar da inquietação profunda. 

O salmista não escreve como alguém distante da dor, mas como quem está imerso nela. Ainda assim, ele testemunha algo surpreendente: em meio ao caos interior, o consolo de Deus não apenas visita – ele traz alívio real na alma.

Esse versículo, portanto, é um convite à esperança madura. Não uma esperança ingênua, que ignora a dor, mas uma esperança forjada no confronto honesto entre angústia e fé. Aqui não há fuga da realidade, há encontro com Deus dentro dela. Vamos, então, caminhar juntos na compreensão do Salmo 94:19.

No hebraico original, a palavra traduzida como “inquietação” ou “pensamentos” carrega a ideia de pensamentos intrusivos, ramificados, emaranhados – como os galhos de uma árvore que crescem desordenada. Sabe aquela sensação de que a mente não para e um problema vai puxando outro? É exatamente isso que o texto descreve.

Já o termo “consolo” aponta para algo mais profundo do que um alívio superficial. Trata-se de um alento que envolve compaixão e mudança de perspectiva. Não é  um simples “tapinha nas costas”, mas uma intervenção divina que gera “alívio” – palavra que, no original, sugere deleite, prazer, até alegria serena. O salmista não afirma que suas preocupações desapareceram, mas que, à medida que elas aumentavam, o consolo de Deus crescia na mesma proporção – ou até além dela.

O que, então, o Salmo 94:19 nos ensina? Ele nos lembra que a fé bíblica não nega o sofrimento interior. Pelo contrário: ela o reconhece, o nomeia e o apresenta diante de Deus. O consolo do Senhor não é prometido como ausência de inquietações, mas como presença fiel em meio delas.

Esse texto confronta diretamente uma espiritualidade triunfalista que exige força constante e não admite fragilidade. O salmista nos mostra que é possível ser fiel e, ao mesmo tempo, estar emocionalmente sobrecarregado. Como observou João Calvino: “Deus não remove imediatamente todas as angústias dos seus servos, mas sustenta-os de tal maneira que não sucumbam sob o peso delas”. O consolo divino não elimina a luta, mas impede que ela nos destrua.

Talvez, porém, surja uma pergunta: por que tantas denominações cristãs pregam uma prosperidade material – e tantas pessoas acreditam – enquanto o Salmo 94:19 revela que a realidade da fé é bem mais complexa? 

O que existe aqui é um choque real entre o púlpito e a vida; entre o que se promete e o que, de fato, se vive. Caminhemos com calma à luz das Escrituras.

1. Por que a “teologia da prosperidade” encontra tanto eco? Ela encontra espaço porque dialoga com desejos legítimos, mas também com fragilidades humanas. Quem sofre quer alívio rápido. Quem enfrenta dificuldades financeiras quer respostas. Quem vive insegurança deseja controle. A promessa costuma seguir uma lógica simples e sedutora: “Se você crer, declarar, ofertar ou obedecer corretamente, Deus vai recompensá-lo com bens, sucesso e vitória visível”. 

Isso oferece previsibilidade, sensação de mérito espiritual e alívio emocional imediato – ainda que superficial. Biblicamente, porém, essa lógica é frágil. Ela transforma Deus em um mecanismo de troca e a fé em uma ferramenta de obtenção, não em relacionamento. Como alertou Karl Barth: “Quando Deus passa a servir aos nossos projetos, Ele já não é mais Deus, mas um ídolo bem-intencionado”. 

2. O problema não é falar de bênção – é reduzir Deus a bens. A Bíblia não demoniza o trabalho, a provisão ou a prosperidade em si. O problema surge quando a prosperidade material torna prova de fé; quando a escassez vira culpa espiritual; quando o sofrimento é interpretado como falta de confissão positiva ou pecado oculto.

O Salmo 94:19 segue na direção oposta. O salmista não diz: “Quando minhas inquietações aumentaram, Deus multiplicou meus bens”. Ele diz: “O teu consolo trouxe alívio à minha alma”. Aqui está uma verdade desconfortável, mas libertadora: muitas vezes Deus não muda o cenário, mas sustenta o coração. E isso não é fé menor – é fé madura.

3. O Salmo 94:19 como antídoto pastoral. Esse texto nos ensina que a resposta de Deus à dor não é automática nem padronizada. Às vezes, o problema permanece, a injustiça continua e a luta interna se intensifica. Ainda assim, o consolo de Deus se manifesta como presença fiel, não como prêmio material. 

Aqui está o grande choque com a teologia da prosperidade: ela promete controle externo; salmo revela transformação interna. Enquanto uma diz: “Deus vai te tirar do vale”, a outra afirma: “Deus vai caminhar com você no vale” (Salmo 23).

Como, então, lidar com promessas irreais diante da vida real?

a) Desenvolvendo discernimento bíblico. O crente precisa aprender a perguntar: isso que estou ouvindo nasce do texto bíblico ou foi imposto a ele? Jesus prometeu isso aos seus discípulos? O próprio Cristo foi claro: “No mundo vocês terão aflições” (João 16:33). Se o Senhor não prometeu conforto constante, por que o servo esperaria?

b) Separando fé de ilusão religiosa. Fé não é negar a realidade; é enfrentá-la com Deus. Promessas vazias produzem frustração espiritual e culpa silenciosa – aquela sensação de que “se não aconteceu, a fé falhou”. O Salmo 94:19 nos liberta dessa culpa. A inquietação não é sinal de incredulidade, mas de humanidade.

c) Redefinindo o que é vitória. Na lógica bíblica, vitória nem sempre é conquista externa. Às vezes, é permanecer fiel, não perder a esperança, não endurecer o coração, continuar confiando mesmo sem respostas. Paulo resume bem: “Tendo o que comer e vestir, estejamos satisfeitos” (1Timóteo 6:8).

O Salmo 94:19 nos lembra que Deus não se mede pelo tamanho do que Ele dá, mas pela profundidade do consolo que oferece. No fim das contas, quando tudo balança, não são os bens que sustentam a alma – é o Deus que permanece.

Muitas vezes tentamos organizar a mente como quem arruma uma estante de livros, mas, nos dias de aflição, a alma se parece mais com um mar revolto. O segredo do salmista não foi o esforço hercúleo de “parar de pensar”, mas a entrega humilde que permite ao consolo divino tornar-se âncora em meio ao vendaval.

O impacto real deste texto, hoje, é compreender que Deus não espera que você esteja em paz para se aproximar; Ele traz a paz quando vem. Suas inquietações podem ser muitas, barulhentas e até maiores do que a sua força – mas jamais serão maiores do que a capacidade de Deus de acolher a sua fragilidade.

Descanse nessa certeza: o Deus que sustenta as galáxias é o mesmo que, com delicadeza de Pai, desembaralha os nós do seu coração. O alívio não é a ausência de problemas, é a presença fiel de Quem já venceu o mundo.

Sola Scriptura - Solus Christus - Sola gratia - Sola fide e Soli Deo glória 

Christós kyrios

domingo, 11 de janeiro de 2026

A espiritualidade da esperança

 

Está escrito:

Mas aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças, voam alto como as águias, correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam” Isaías 40:31 (NVI).

 

Você já sentiu que, por mais que durma, sua alma continua cansada? Vivemos em uma era de “baterias viciadas”. Corremos o dia inteiro, acumulamos tarefas, compromissos e expectativas – e, ainda assim, parece que não saímos do lugar. 

O profeta Isaías, escrevendo há milênios para um povo que também se sentia esquecido, cansado e esgotado no exílio, deixou uma das promessas mais conhecidas – e talvez menos compreendidas da Bíblia: a de que é possível renovar as forças e voar como águias.  

Isaías proclama uma verdade profundamente contracultural: a verdadeira renovação não nasce da pressa, mas da espera no Senhor. Este texto não propõe uma espiritualidade escapista, desconectada da realidade, mas uma fé robusta, capaz de sustentar o caminhar cotidiano. [A fé bíblica não nos tira da vida real; ela nos sustenta dentro dela]. 

A pergunta inevitável é: como isso funciona na prática, entre um boleto e outro?

O objetivo desta reflexão é compreender que o vigor cristão não é fruto de automotivação, mas de conexão. O texto revela um verdadeiro ritmo de vida – um modo de existir que nos protege do esgotamento emocional e espiritual. 

O capítulo 40 marca uma virada decisiva no livro de Isaías. Depois de longos oráculos de juízo, a mensagem se abre com palavras de consolo: “Consolem, consolem o meu povo” (Isaías 40:1). O versículo 31 é o clímax dessa seção, o ponto alto da esperança anunciada.

A expressão hebraica traduzida por “esperam” é qavâ, que não carrega a ideia de passividade, mas expectativa confiante. A imagem é de alguém que estica uma corda, aguardando que ela seja tensionada. Esperar, aqui, não é resignação, mas dependência ativa.

Quando o texto afirma que os que esperam no Senhor “renovam as suas forças”, a ideia é de troca. O verbo sugere substituir forças humanas – limitadas, frágeis e desgastáveis – pela força que vem de Deus. O contraste já havia sido preparado nos versos anteriores: “Até os jovens se cansam e ficam exaustos” (Isaías 40:30). Nem mesmo a juventude, símbolo máximo de vigor, é suficiente quando Deus é retirado do centro. 

A metáfora da águia é rica e profundamente significativa no imaginário hebraico. Diferente de outras aves, ela não luta contra a tempestade; ela usa o vento contrário para subir mais alto. Assim, o texto não promete ausência de dificuldades, mas capacidade de transcendê-las. [A fé não elimina o vento contrário; ela ensina a usá-lo]. 

Por fim, Isaías apresenta uma progressão curiosa: voam, correm, andam. Não se trata de uma queda de intensidade, mas de um ensinamento pastoral precioso. A fidelidade a Deus se manifesta tanto nos grandes momentos quanto na rotina simples. O milagre não é apenas voar – é continuar andando sem se cansar.

Para Israel, Isaías 40:31 foi uma palavra de esperança em meio ao exílio babilônico. Deus não havia perdido o controle da história. O cativeiro não era o fim. Para nós, hoje, o texto dialoga com uma cultura marcada pela exaustão emocional, espiritual e relacional. Vivemos pressionados por desempenho, resultados imediatos e produtividade constante. Isaías confronta essa lógica ao afirmar que esperar no Senhor não é atraso, é fonte de renovação.

Talvez você se pergunte: como, em um mundo acelerado, dominado pelo imediatismo e  pela ansiedade, o cristão pode esperar no Senhor? O que isso significa, de forma concreta, para nossos dias?

Sim, o cristão contemporâneo pode – e precisa – esperar no Senhor. E mais: hoje, essa espera se tornou um ato profundamente contracultural.

Biblicamente, esperar no Senhor não é passividade nem fuga da realidade, mas uma postura espiritual ativa. Essa espera se expressa em três dimensões centrais:

1. Esperar é resistir à tirania da urgência. Vivemos sob a pressão do “agora”: respostas imediatas, soluções rápidas, resultados instantâneos. Esperar no Senhor é recusar a lógica de que tudo precisa ser resolvido imediatamente. 

Jesus viveu nesse ritmo. Ele não correu para se tornar rei (João 6:15), não antecipou sua hora (João 2:4) e caminhou segundo o tempo do Pai. Esperar, hoje, é confiar que o tempo de Deus continua sendo mais sábio que nossa ansiedade. John Oswalt, observa que, em Isaías 40:31, esperar não é fuga da realidade, mas um ato radical de confiança em meio a ela.

2. Esperar é deslocar a fonte da segurança. Grande parte da ansiedade moderna nasce da ilusão de controle. Esperar no Senhor é transferir o peso da sustentação da vida – que nunca coube ao ser humano – para Deus. Pedro expressa isso de forma simples e pastoral: “Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1Pedro 5:7).

3. Esperar é permanecer fiel no ordinário. Isaías 40:31 termina com um detalhe essencial: “andam e não se cansam”. A maior parte da vida cristã não acontece nos momentos de êxtase espiritual, mas na fidelidade silenciosa do dia a dia. 

Esperar no Senhor, hoje, é:

·      continuar orando mesmo sem respostas imediatas;

·      agir com ética mesmo quando o atalho parece mais eficiente;

·      perseverar no bem quando o reconhecimento não vem.

Paulo resume essa espiritualidade com clareza: “Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos” (Gálatas 6:9).

Esperar no Senhor não é atraso espiritual. É maturidade. É uma fé que respira fundo, caminha com constância e confia que Deus está agindo mesmo quando o coração está cansado. Em um mundo acelerado, esperar no Senhor não nos torna lentos – nos torna firmes. Sustentados por Ele, seguimos: às vezes voando, às vezes correndo, mas sempre caminhando, sem nos cansarmos em vão.

 

Sola Scriptura - Solus Christus - Sola gratia - Sola fide e Soli Deo glória 

Christós kyrios

domingo, 4 de janeiro de 2026

Olhos que iluminam ou escurecem: a espiritualidade do olhar

 


Está escrito:

“Os olhos são a lâmpada do corpo. Portanto, se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo estará cheio de luz. Mas, se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo estará cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, quão grandes trevas são!” Mateus 6:22-23 (NVI).

 

Poucas imagens usadas por Jesus são tão simples e, ao mesmo tempo, tão profundas quanto esta: os olhos como “lâmpada do corpo”. No Sermão do Monte, Ele não está apenas estabelecendo regras morais; está reorientando o desejo humano. 

Esse trecho funciona como um verdadeiro “pivô” no discurso de Jesus. Ele conecta o ensino sobre o acúmulo de tesouros com a escolha decisiva entre servir a Deus ou às riquezas. Ao usar a metáfora da visão, Jesus nos ensina que enxergar não é apenas um ato físico, mas um diagnóstico espiritual.

Aqui, Ele toca o centro da nossa espiritualidade: aquilo que permitimos entrar, aquilo que desejamos, aquilo que molda o nosso olhar sobre Deus, sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Por isso, convido você a avançar nesta leitura com disposição mental (interior) para aprender, discernir e transformar práticas – especialmente neste novo ano que se inicia. Não se trata apenas de compreender o texto, mas de permitir que ele nos leia.

Para entender melhor o que Jesus quis dizer, é importante olhar para algumas palavras no original grego:

  • O olho “bom” (Haploûs): No grego, haploûs significa “simples”, “único”, “sem duplicidade”. Na tradição judaica, ter um “olho bom” era uma expressão ligada à generosidade e à integridade. É o olhar que não está dividido, que não vive entre dois centros. Ele olha para Deus com inteireza, sem reservas.
  • O olho “mau” (Ponērós): Aqui, a palavra carrega a ideia de inveja, malícia ou avareza. No contexto de Mateus 6, o “olho mau” é aquele preso aos tesouros da terra, incapaz de perceber a vida a partir do Reino. Esse olhar fragmentado produz uma visão distorcida da realidade. Jesus, portanto, não fala de um moralismo superficial, mas de uma disposição mental desalinhada com os valores de Deus.
  • A lâmpada do corpo: O olho não produz luz; ele apenas permite que a luz entre. Se o canal está obstruído, distorcido ou contaminado, todo o corpo – isto é, toda a vida – sofre. Por isso, a advertência final de Jesus é forte: “Se a luz que está dentro de você são trevas...”. Aqui, Ele denuncia o perigo da autoilusão espiritual: acreditar que se enxerga bem quando, na verdade, se caminha às cegas.

Esse texto nos obriga a uma pergunta honesta: para onde está apontado o nosso olhar?Vivemos numa cultura saturada de imagens, desejos e estímulos. O “olho” moderno já não é apenas biológico; ele é digital, emocional e espiritual. Jesus nos ensina que o problema não está apenas no que vemos, mas em como vemos. Uma mente desordenada consegue distorcer até aquilo que é bom.

Diante disso, talvez surja a pergunta inevitável: como manter “olhos bons” e cultivar simplicidade, gratidão e foco em Cristo num mundo tão saturado de estímulos? Essa questão toca o nervo exposto da vida cristã contemporânea. Cultivar essas virtudes não é fugir do mundo, mas resistir a ele de forma consciente e espiritual. Jesus não nos chamou para viver de olhos fechados, mas com olhos curados. Vamos caminhar por partes, com os pés no chão e o coração no Evangelho.

1. Cultivar a simplicidade: aprender a ver sem acumular. A simplicidade cristã começa quando deixamos de confundir necessidade com desejo. Jesus afirma: “A vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens” (Lucas 12:15). 

O caminho prático é: 

  • Reduzir o excesso – menos ruído, menos comparação, menos consumo automático. Não é pobreza forçada, é liberdade interior; 
  • Escolher com intenção o que entra pelos olhos: o que leio, assisto, sigo, consumo; 
  • Praticar o contentamento (cf Filipenses 4:11-13): aprenda a dizer “basta”. 

Simplicidade não é ter pouco, é não ser possuído pelo muito.


2. Cultivar a gratidão: reaprender a enxergar o dom. A gratidão cura o olhar porque nos tira da lógica da falta e nos devolve à lógica da graça. Paulo escreve: “Em tudo dai graças” (1 Tessalonicenses 5:18). 

O caminho prático é: 

  • Nomear o bem recebido, agradecer em voz alta, em oração, em escrita; 
  • Celebrar o ordinário, pão, mesa, gente, descanso. Deus habita o comum; 
  • Trocar a reclamação pela memória. Lembrar o que Deus já fez ilumina o presente. 

A gratidão não ignora a dor, mas impede que a dor defina tudo.


3. Cultivar o foco em Cristo: ajustar o centro do olhar. Foco em Cristo não é obsessão religiosa, é orientação da mente. “Fixemos os olhos em Jesus, autor e consumador da fé” (Hebreus 12:2). 

O caminho prático é: 

  • Ritmos espirituais simples e constantes: oração diária, leitura bíblica lenta, silêncio;
  • Os Evangelhos como lente principal: pergunte sempre “como Jesus vê isso?” 
  • Vida comunitária: a fé amadurece em comunhão, não no isolamento. 

Quando Cristo é o centro, todo o resto encontra o seu lugar.


4. Disciplina do olhar: uma espiritualidade dos sentidos. Num mundo saturado de estímulos, o olhar precisa de discernimento e disciplina, não de repressão. 

O caminho prático é: 

  • Jejum de imagens: pausas intencionais de redes sociais, notícias ou entretenimento;
  • Curadoria consciente: seguir o que edifica, não o que alimenta a inveja ou a ansiedade;
  • Contemplação: aprender a olhar demoradamente a natureza, a Escritura e as pessoas. 

O olhar que corre demais perde a capacidade de amar.


Nada disso acontece da noite para o dia. É um caminho cotidiano, imperfeito e cheio de recomeços. Jesus não exige olhos impecáveis, mas corações disponíveis. Simplicidade, gratidão e foco não são técnicas, são frutos de uma vida que escolheu caminhar na luz.

O teólogo C.S. Lewis, em A Abolição do Homem, sugere algo que ecoa fortemente aqui: aquilo que vemos depende não apenas do que está diante de nós, mas do tipo de pessoa que somos ao olhar. Um coração corrompido tende a enxergar um mundo que justifica sua própria corrupção. 

Meus amados, a saúde da nossa vida espiritual não depende apenas de “fazer as coisas certas”, mas de enxergar o jeito certo. Se o nosso olhar estiver fixo na Graça e na generosidade de Deus, a vida será naturalmente iluminada. 

Mas atenção: a luz que fabricamos por conta própria, quando não vem de Deus, não passa de escuridão bem disfarçada.

Que o Senhor purifique a nossa visão e, a partir de 2026, nos conduza a viver como filhos cheios de luz.

Sola Scriptura - Solus Christus - Sola gratia - Sola fide e Soli Deo glória 

Christós kyrios