Está escrito:
“Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus” (Filipenses 2:5, NAA)
Filipenses 2:5 reúne uma das exortações mais profundas e, ao mesmo tempo, mais práticas de todo o Novo Testamento. Paulo não convida a igreja a apenas admirar Cristo à distância, como quem observa um modelo inalcançável. Ele chama os cristãos a participarem do modo de pensar de Jesus, a assumirem a sua disposição mental. Trata-se de um convite à transformação profunda – uma mudança que começa na mente, alcança o coração e se traduz em atitudes concretas no cotidiano. Aqui, a teologia elevada e ética prática caminham juntas.
Para compreender o peso desse chamado, é fundamental olhar o verbo central do texto grego phroneō. Paulo não está falando apenas de um pensamento intelectual ou de uma ideia abstrata. Em outras palavras, não se trata apenas do que se pensa, mas de como se pensa e partir de que valores ser vive.
Além disso, Paulo não faz uma sugestão opcional. Ele usa o imperativo no tempo presente, indicando uma ação contínua: “continuem mantendo esse modo de pensar”. O versículo 5 funciona como porta de entrada para o grande hino cristológico que segue, especialmente o conceito de Kenosis (v. 7), o esvaziamento de Cristo. A exegese deixa claro que ter a mente de Cristo é, essencialmente, adotar a lógica da humildade voluntária. Cristo não abriu mão de sua divindade, mas renunciou aos seus privilégios em favor do outro. Aqui, Paulo redefine categorias como grandeza, poder e sucesso. A mente de Cristo não é orientada pela autopreservação, mas pela autoentrega.
A igreja de Filipos vivia tensões internas, disputas de status e conflitos relacionais – algo surpreendentemente parecido com o que ainda enfrentamos hoje. O apelo à mente de Cristo surge como uma resposta pastoral a um problema comunitário real. Paulo nos ensina, de forma muito prática, que conflitos não se resolvem apenas com regras; que unidade não nasce da uniformidade; e que transformação acontece quando o caráter de Cristo molda nossas relações.
Assim, ter a mente de Cristo é escolher o caminho da humildade em um mundo competitivo, da obediência em uma cultura autocentrado e do amor sacrificial em uma sociedade marcada pelo ego. Esse tema ecoa por toda Escritura: Romanos 12:2 nos chama à renovação da mente; 1 Coríntios 2:16 afirma que – “Nós temos a mente de Cristo”; Colossenses 3:12-14 nos exorta a nos revestirmos de humildade, mansidão e amor. Esses textos mostram que a mente de Cristo não é um ideal abstrato, mas uma espiritualidade vivida no chão da vida.
Karl Barth afirma que Cristo é a revelação definitiva de Deus e também do verdadeiro ser humano. Ter a mente de Cristo, portanto, é alinhar-se à forma como Deus escolheu revelar a si mesmo – não no domínio, mas na humildade.
Dietrich Bonhoeffer insiste que a encarnação redefine toda a ética cristã. Cristo não apenas ensina o bem; Ele se torna o próprio caminho do bem. A mente de Cristo não é aprendida apenas na contemplação, mas no seguimento concreto, diário, custoso.
Diante disso, é natural que surja a pergunta: em um mundo barulhento, acelerado e competitivo, tão diferente do contexto de Filipos, como o cristão pode desenvolver hoje o mesmo modo de pensar de Cristo?
Sejamos honestos: pensar como Cristo hoje é nadar contra uma correnteza intensa, ruidosa e profundamente egocentrada. Ainda assim, a resposta bíblica é pastoral, realista e bem “pé no chão”:
1. Comece pelo óbvio – e frequentemente esquecido: silêncio intencional. Vivemos cercados por ruídos constantes: notificações, opiniões, polarizações e urgências artificiais. A mente de Cristo não se forma nesse ambiente. Jesus, repetidas vezes, retirava-se para lugares solitários. Isso não era fuga, mas formação. Desenvolver o modo de pensar de Cristo exige criar espaços de silêncio: desligar-se um pouco para ouvir Deus; aprender a não reagir a tudo; permitir que a Palavra fale antes das vozes do mundo.
2. Substitua informação por formação. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, tão pouca transformação. Paulo não escreve: “tenham o mesmo conteúdo de Cristo”, mas “o mesmo modo de pensar”. Isso envolve prática, repetição, convivência. Desenvolvemos a mente de Cristo quando lemos a Bíblia devagar, e não apenas muito; quando oramos não só para pedir, mas para escutar; e quando permitimos que a Escritura confronte nossos valores, em vez de apenas confirmar nossas opiniões. A mente de Cristo se forma quando o evangelho redefine nossos critérios de sucesso, poder e felicidade.
3. Aprender a pensar como Cristo convivendo com Cristo. Ninguém aprende a pensar como Jesus apenas estudando Jesus. Os discípulos aprenderam andando com Ele. Isso implica cultivar uma espiritualidade relacional: oração como diálogo, e não monólogo; leitura bíblica com a pergunta: “O que isso revela sobre o coração de Cristo?”; e, o hábito de perguntar, antes de agir: “Isso reflete o caráter de Jesus?” A mente de Cristo se desenvolve no seguimento diário, não em experiências espirituais isoladas.
4. Resistir à cultura da autopromoção com a prática da humildade. A cultura atual diz: “apareça, vença, imponha-se”. Cristo diz: “esvazie-se, sirva, confie” (Fp 2:6-8). Desenvolver a mente de Cristo exige escolhas contraculturais: servir sem aparecer; ouvir sem preparar a resposta; abrir mão de direitos em nome do amor; valorizar pessoas acima de resultados. Humildade não é pensar manos de si, mas pensar menos em si.
5. Discernir o espírito do tempo sem absorvê-lo. O cristão vive no mundo, mas não pensa segundo o mundo. Paulo exorta: “Examinem tudo, retenham o que é bom” (1 Ts 5:21). Isso requer discernimento espiritual: nem tudo que viraliza edifica; nem toda opinião precisa ser absorvida; nem toda indignação merece reação. A mente de Cristo é firme sem ser agressiva, compassiva sem ser ingênua e fiel sem ser alienada.
Pensar como Cristo hoje não é fácil, mas é profundamente libertador. No fim das contas, não se trata de pensar diferente por rebeldia, mas de pensar como Ele para viver como Ele viveu. Ter o “mesmo modo de pensar de Cristo Jesus” não é um exercício de força de vontade, mas de rendição. É permitir que o Espírito Santo transforme nossos instintos naturais de autopreservação em instintos de amor, serviço e entrega.
Pensar como Cristo é, afinal, viver como Ele viveu – confiando que o caminho da cruz continua sendo o caminho da verdadeira vida.
Sola Scriptura - Solus Christus - Sola gratia - Sola fide e Soli Deo glória
Christós kyrios



