domingo, 4 de janeiro de 2026

Olhos que iluminam ou escurecem: a espiritualidade do olhar

 


Está escrito:

“Os olhos são a lâmpada do corpo. Portanto, se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo estará cheio de luz. Mas, se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo estará cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, quão grandes trevas são!” Mateus 6:22-23 (NVI).

 

Poucas imagens usadas por Jesus são tão simples e, ao mesmo tempo, tão profundas quanto esta: os olhos como “lâmpada do corpo”. No Sermão do Monte, Ele não está apenas estabelecendo regras morais; está reorientando o desejo humano. 

Esse trecho funciona como um verdadeiro “pivô” no discurso de Jesus. Ele conecta o ensino sobre o acúmulo de tesouros com a escolha decisiva entre servir a Deus ou às riquezas. Ao usar a metáfora da visão, Jesus nos ensina que enxergar não é apenas um ato físico, mas um diagnóstico espiritual.

Aqui, Ele toca o centro da nossa espiritualidade: aquilo que permitimos entrar, aquilo que desejamos, aquilo que molda o nosso olhar sobre Deus, sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Por isso, convido você a avançar nesta leitura com disposição mental (interior) para aprender, discernir e transformar práticas – especialmente neste novo ano que se inicia. Não se trata apenas de compreender o texto, mas de permitir que ele nos leia.

Para entender melhor o que Jesus quis dizer, é importante olhar para algumas palavras no original grego:

  • O olho “bom” (Haploûs): No grego, haploûs significa “simples”, “único”, “sem duplicidade”. Na tradição judaica, ter um “olho bom” era uma expressão ligada à generosidade e à integridade. É o olhar que não está dividido, que não vive entre dois centros. Ele olha para Deus com inteireza, sem reservas.
  • O olho “mau” (Ponērós): Aqui, a palavra carrega a ideia de inveja, malícia ou avareza. No contexto de Mateus 6, o “olho mau” é aquele preso aos tesouros da terra, incapaz de perceber a vida a partir do Reino. Esse olhar fragmentado produz uma visão distorcida da realidade. Jesus, portanto, não fala de um moralismo superficial, mas de uma disposição mental desalinhada com os valores de Deus.
  • A lâmpada do corpo: O olho não produz luz; ele apenas permite que a luz entre. Se o canal está obstruído, distorcido ou contaminado, todo o corpo – isto é, toda a vida – sofre. Por isso, a advertência final de Jesus é forte: “Se a luz que está dentro de você são trevas...”. Aqui, Ele denuncia o perigo da autoilusão espiritual: acreditar que se enxerga bem quando, na verdade, se caminha às cegas.

Esse texto nos obriga a uma pergunta honesta: para onde está apontado o nosso olhar?Vivemos numa cultura saturada de imagens, desejos e estímulos. O “olho” moderno já não é apenas biológico; ele é digital, emocional e espiritual. Jesus nos ensina que o problema não está apenas no que vemos, mas em como vemos. Uma mente desordenada consegue distorcer até aquilo que é bom.

Diante disso, talvez surja a pergunta inevitável: como manter “olhos bons” e cultivar simplicidade, gratidão e foco em Cristo num mundo tão saturado de estímulos? Essa questão toca o nervo exposto da vida cristã contemporânea. Cultivar essas virtudes não é fugir do mundo, mas resistir a ele de forma consciente e espiritual. Jesus não nos chamou para viver de olhos fechados, mas com olhos curados. Vamos caminhar por partes, com os pés no chão e o coração no Evangelho.

1. Cultivar a simplicidade: aprender a ver sem acumular. A simplicidade cristã começa quando deixamos de confundir necessidade com desejo. Jesus afirma: “A vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens” (Lucas 12:15). 

O caminho prático é: 

  • Reduzir o excesso – menos ruído, menos comparação, menos consumo automático. Não é pobreza forçada, é liberdade interior; 
  • Escolher com intenção o que entra pelos olhos: o que leio, assisto, sigo, consumo; 
  • Praticar o contentamento (cf Filipenses 4:11-13): aprenda a dizer “basta”. 

Simplicidade não é ter pouco, é não ser possuído pelo muito.


2. Cultivar a gratidão: reaprender a enxergar o dom. A gratidão cura o olhar porque nos tira da lógica da falta e nos devolve à lógica da graça. Paulo escreve: “Em tudo dai graças” (1 Tessalonicenses 5:18). 

O caminho prático é: 

  • Nomear o bem recebido, agradecer em voz alta, em oração, em escrita; 
  • Celebrar o ordinário, pão, mesa, gente, descanso. Deus habita o comum; 
  • Trocar a reclamação pela memória. Lembrar o que Deus já fez ilumina o presente. 

A gratidão não ignora a dor, mas impede que a dor defina tudo.


3. Cultivar o foco em Cristo: ajustar o centro do olhar. Foco em Cristo não é obsessão religiosa, é orientação da mente. “Fixemos os olhos em Jesus, autor e consumador da fé” (Hebreus 12:2). 

O caminho prático é: 

  • Ritmos espirituais simples e constantes: oração diária, leitura bíblica lenta, silêncio;
  • Os Evangelhos como lente principal: pergunte sempre “como Jesus vê isso?” 
  • Vida comunitária: a fé amadurece em comunhão, não no isolamento. 

Quando Cristo é o centro, todo o resto encontra o seu lugar.


4. Disciplina do olhar: uma espiritualidade dos sentidos. Num mundo saturado de estímulos, o olhar precisa de discernimento e disciplina, não de repressão. 

O caminho prático é: 

  • Jejum de imagens: pausas intencionais de redes sociais, notícias ou entretenimento;
  • Curadoria consciente: seguir o que edifica, não o que alimenta a inveja ou a ansiedade;
  • Contemplação: aprender a olhar demoradamente a natureza, a Escritura e as pessoas. 

O olhar que corre demais perde a capacidade de amar.


Nada disso acontece da noite para o dia. É um caminho cotidiano, imperfeito e cheio de recomeços. Jesus não exige olhos impecáveis, mas corações disponíveis. Simplicidade, gratidão e foco não são técnicas, são frutos de uma vida que escolheu caminhar na luz.

O teólogo C.S. Lewis, em A Abolição do Homem, sugere algo que ecoa fortemente aqui: aquilo que vemos depende não apenas do que está diante de nós, mas do tipo de pessoa que somos ao olhar. Um coração corrompido tende a enxergar um mundo que justifica sua própria corrupção. 

Meus amados, a saúde da nossa vida espiritual não depende apenas de “fazer as coisas certas”, mas de enxergar o jeito certo. Se o nosso olhar estiver fixo na Graça e na generosidade de Deus, a vida será naturalmente iluminada. 

Mas atenção: a luz que fabricamos por conta própria, quando não vem de Deus, não passa de escuridão bem disfarçada.

Que o Senhor purifique a nossa visão e, a partir de 2026, nos conduza a viver como filhos cheios de luz.

Sola Scriptura - Solus Christus - Sola gratia - Sola fide e Soli Deo glória 

Christós kyrios