Está escrito:
“Que o Deus paciente e encorajador dê a vocês um espírito de unidade, segundo Cristo Jesus, para que, juntos e a uma só voz, glorifiquem ao Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 15:5-6, NVI).
Poucos temas são tão necessários à Igreja de hoje quanto a unidade. Vivemos em uma época marcada por polarizações, disputas de opinião e uma crescente dificuldade de conviver com quem pensa diferente de nós. E isso não acontece apenas fora da Igreja. Muitas vezes, as mesmas tensões atravessam nossas comunidades, famílias e relacionamentos.
Por isso, Romanos 15:5-6 continua sendo um texto profundamente atual. Paulo não escreve para uma igreja onde todos pensavam da mesma maneira. Ele escreve para uma comunidade formada por pessoas diferentes com histórias, tradições e convicções distintas, e mostra que essas diferenças não precisam necessariamente transformar-se em divisão.
Para compreender melhor suas palavras, precisamos olhar para o contexto da igreja de Roma. Paulo escreve a Carta aos Romanos provavelmente em meados da década de 50 d.C., tradicionalmente associado ao período em que se encontrava em Corinto. Ele ainda pretendia viajar a Jerusalém e, posteriormente, chegar a Roma e seguir em direção à Espanha (Rm 15:23-24).
A comunidade cristã de Roma reunia judeus e gentios. Essa diversidade trouxe consigo algumas tensões. A expulsão de judeus de Roma durante o governo do imperador Cláudio, por volta de 49 d.C., alterou a composição das comunidades judaicas e cristãs da cidade. Áquila e Pricila, por exemplo, estavam entre aqueles que deixaram Roma e foram para Corinto (At 18:2). Depois da morte de Cláudio, em 54 d.C., muitos judeus puderam retornar.
Nesse intervalo, comunidades cristãs de maioria gentílica haviam se desenvolvido. O reencontro entre cristãos de diferentes tradições certamente exigiam mais do que boa vontade. Era necessário aprender novamente a conviver.
É nesse cenário que precisamos ler Romanos 14 e 15. As divergências envolviam questões como alimentos, dias considerados especiais e práticas relacionadas à tradição judaica. Paulo identifica os grupos como “fortes” e “fracos” na fé, mas se recusa a transformar essas diferenças em uma guerra dentro da Igreja. Pelo contrário, sua orientação é direta: “Aceitem o que é fraco na fé, sem discutir assuntos controvertidos” (Rm 14:1).
Paulo não está dizendo que a verdade não importa. Tampouco está afirmando que todas as posições são igualmente corretas. Seu argumento é outro: existem questões nas quais cristãos sinceros podem ter convicções diferentes sem que isso destrua a comunhão.
Por isso, Romanos 15:5-6 não aparece como uma frase isolada. Ele é o resultado de uma argumentação que começa com a responsabilidade dos cristãos de suportarem uns aos outros (15:1), passa pelo exemplo de Cristo, que “não agradou a si próprio” (15:3), e chega a oração para que Deus conceda à comunidade um espírito de unidade.
Paulo começa chamando Deus de “paciente e encorajador”. A expressão retoma aquilo que havia sido apresentado no versículo anterior: as Escrituras produzem perseverança e encorajamento (Rm 15:4). Agora, Paulo olha para a fonte de tudo isso. Deus é aquele que sustenta seu povo quando a convivência se torna difícil.
Essa observação é importante. A unidade cristã não nasce simplesmente de esforço humano, habilidade diplomática ou capacidade de negociação. Ela é fruto da graça de Deus operando no coração de pessoas que aprenderam a viver segundo Cristo.
Em seguida, Paulo pede que os cristãos tenham “um espírito de unidade”. Literalmente: “pensar a mesma coisa”. Não significa que todos precisem concordar em cada detalhe. Significa que devem permitir que Cristo determine a maneira como tratam uns aos outros. A questão, portanto, não é apenas o que pensamos, mas como pensamos uns dos outros.
É possível discordar e continuar amando. É possível ter convicções diferentes sem transformar o outro em inimigo. É possível defender aquilo em que acreditamos sem tratar quem pensa diferente como alguém inferior ou indigno de nossa comunhão.
Douglas Moo e Thomas Schreiner destacam que a unidade buscada por Paulo não significa necessariamente unanimidade em todas as questões, mas uma disposição mental para o acolhimento e amor fundamentado em Cristo.
Paulo acrescenta uma expressão decisiva: “segundo Cristo Jesus”. Cristo é o padrão da unidade. Não se trata de uma convivência baseada apenas na tolerância social ou em uma tentativa de evitar conflitos. O modelo é o próprio Jesus, que, conforme Paulo havia acabado de afirmar, “não agradou a si próprio” (Rm 15:3).
Aqui está uma das grandes lições do texto: maturidade cristã não é apenas saber quais são os nossos direitos. É saber quando podemos abrir mão deles por amor. O cristão maduro não pergunta somente: “Eu posso fazer isso?”. Ele também pergunta: “O que a minha atitude produzirá na vida do meu irmão?”. Essa é uma mudança profunda de perspectiva.
Em seguida, Paulo apresenta o propósito: “para que, juntos e a uma só voz, glorifiquem ao Deus e Pai”. Aqui encontramos o coração da passagem: a unidade não é o objetivo final. A glória de Deus é. A Igreja não precisa permanecer unida apenas para preservar sua imagem, evitar conflitos ou manter uma aparência de organização. Ela precisa viver em unidade para que sua vida comunitária testemunhe a realidade do evangelho.
Deus não criou uma Igreja formada por pessoas iguais. Há diferenças de personalidade, história, cultura, idade, experiência, dons e preferências. A beleza da comunidade cristã não está em eliminar essas diferenças, mas em aprender a submetê-los ao senhorio de Cristo.
E Paulo continua dizendo: “Portanto, aceitem uns aos outros, como Cristo os aceitou” (Rm 15:7). A lógica é simples e profunda. Cristo nos acolheu. Portanto, acolhamos uns aos outros. Ele não os recebeu porque éramos iguais, perfeitos ou merecedores. Ele nos recebeu pela graça. E essa graça recebida deve transformar a maneira como recebemos nossos irmãos.
Esse princípio encontra eco em outras partes do Novo Testamento. Jesus orou para que seus discípulos fossem um “para que o mundo creia” (Jo 17:21). Paulo afirmou que existe “um só corpo e um só Espírito” (Ef 4:4-6). Aos filipenses, escreveu: “tenham o mesmo modo de pensar, tenho o mesmo amor” (Fp 2:2), e imediatamente apontou para a humildade de Cristo como fundamento dessa postura (Fp 2:5-8).
A unidade, portanto, não é uma estratégia administrativa da Igreja. É uma consequência do evangelho. O mesmo Cristo que nos reconcilia com Deus nos ensina a caminhar com pessoas diferentes de nós.
E talvez seja justamente aqui que Romanos 15:5-6 se torne mais desconfortável para nós. É relativamente fácil falar sobre unidade quando estamos cercados por pessoas que concordam conosco. O verdadeiro teste aparece quando encontramos alguém que pensa diferente.
Na família, na igreja, nos grupos de estudo, nas redes sociais, nas conversas sobre política, nas discussões sobre estilos de culto, nas diferenças entre gerações. Nesses espaços, podemos defender uma posição correta de uma maneira espiritualmente errada. Podemos ter razão em determinado assunto e, ainda assim, pecar na maneira como tratamos quem discorda de nós.
Por isso, a pergunta de Paulo não é apenas: “você está certo?”. Existe uma pergunta anterior e mais profunda: “Sua maneira de agir está de acordo com Cristo?”. Essa pergunta muda muita coisa.
Viver Romanos 15:5-6 hoje significa aprender a ouvir antes de responder, suportar antes de descartar, acolher antes de julgar e, quando necessário, abrir mão de preferências pessoais por amor. Significa também aprender a distinguir aquilo que é essencial à fé daquilo que pertence ao campo das convicções pessoais.
Nem toda diferença precisa transformar-se em confronto. Nem toda discordância precisa produzir afastamento. Nem toda opinião diferente precisa ser tratada como ameaça. A verdadeira unidade não exige que todos tenham a mesma personalidade, os mesmos costumes, as mesmas preferências políticas ou o mesmo estilo de culto. Ela exige algo mais profundo: que todos estejam submetidos ao mesmo Senhor.
Por isso, podemos pensar em três atitudes fundamentais para viver Rm 15:5-6 em nosso tempo, marcado por divergências políticas e polarizações ideológicas:
1. Colocar o centro acima das margens.
A comunhão cristã não exige que abandonemos todas as nossas convicções pessoais. Existe questões importantes sobre as quais devemos pensar e nos posicionar. Mas nem tudo possui o mesmo peso. O evangelho precisa ocupar o centro. Questões secundárias não podem receber o lugar que pertence a Cristo. Quando nossas preferências se tornam maiores do que nossa identidade em Cristo, aquilo que deveria ser apenas uma diferença passa a ser motivo de divisão.
2. Aprender a exerccer a paciência.
Paciência cristã não significa concordar com tudo. Significa permanecer em amor mesmo quando a convivência é difícil. Há pessoas que não pensam como nós. Há irmãos que possuem outro ritmo, outra história e outra maneira de enxergar determinadas questões. A maturidade cristã nos ensina a não descartá-los simplesmente porque são diferentes. A paciência é uma forma prática de amor.
3. Aprender a cantar a mesma partitura.
Um coral não produz harmonia porque todas as vozes são iguais. Pelo contrário. Elas possuem timbres, alcances e características diferentes. A harmonia acontece porque vozes diferentes cantam a mesma partitura e seguem a mesma regência. Assim também é a Igreja. Somos diferentes, mas pertencemos ao mesmo corpo. Temos histórias diferentes, mas fomos alcançados pela mesma graça. Temos dons diferentes, mas servimos ao mesmo Senhor.
Nossa diversidade não precisa destruir nossa unidade. Pode, pela graça de Deus, tornar-se parte da beleza daquilo que Ele está fazendo em nós. Romanos 15:5-6 nos lembra que o testemunho cristão não está apenas naquilo que proclamamos com os lábios. Está também na maneira como tratamos aqueles que caminham ao nosso lado.
Uma Igreja que fala sobre amor, mas vive em constante hostilidade, contradiz sua própria mensagem. Uma Igreja que proclama reconciliação, mas não consegue conviver com diferenças, enfraquece seu testemunho. Mas quando pessoas diferentes aprendem a viver juntas segundo Cristo alguma coisa extraordinária acontece: suas muitas vozes começam a formar uma só voz.
E essa voz não existe para exaltar a Igreja. Existe para glorificar a Deus. No fim, talvez seja essa a grande mensagem de Romanos 15:5-6: a Igreja não precisa ser formada por pessoas que pensam exatamente da mesma maneira. Precisa ser formada por pessoas que aprenderam a pensar e viver segundo Cristo.
Quando isso acontece, a diversidade deixa de ser uma ameaça e pode tornar-se expressão da graça. Então, pessoas diferentes caminham juntas. Vozes diferentes cantam juntas. Corações diferentes adoram juntos. E, quando a Igreja vive assim, suas muitas vozes tornam-se uma só voz para a glória de Deus.
Porque a verdadeira unidade não acontece quando todos se tornam iguais. Ela acontece quando pessoas diferentes aprendem, em Cristo, a caminhar juntas.
Referências:
MOO, Douglas J. Uma teologia de Paulo e suas cartas: a dádiva do novo domínio em Cristo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2025.
SCHREINER, Thomas R. Romans. Grand Rapids: Baker Academic, 2018.
Sola Scriptura - Solus Christus - Sola gratia - Sola fide e Soli Deo glória
Christós kyrios

Um comentário:
Na verdade, DEUS não exige a PERFEIÇÃO em nós, mas que sejamos JUSTOS! 🤔🙏
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