Está escrito: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize por meio de filosofias inúteis e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, mas não em Cristo.” (Colossenses 2:8, NVI)
Há textos bíblicos que parecem atravessar os séculos para nos encontrar exatamente onde estamos. Colossenses 2:8 é um deles. A advertência de Paulo toca uma questão decisiva: quem tem autoridade para formar nossa maneira de pensar, decidir e viver?
O perigo estava nessa mistura. Cristo continuava sendo mencionado, mas corria o risco de deixar de ser suficiente. Algo estava sendo acrescentado ao evangelho: conhecimentos especiais, experiências espirituais, práticas religiosas e regras humanas. Quando aquilo que deveria ser secundário ocupa o lugar de Cristo, o evangelho deixa de ser o centro.
Por isso, antes de advertir, Paulo apresenta Cristo. Em Colossenses 1:15-20, ele coloca Jesus no centro da criação, da redenção, da igreja e da reconciliação. No capítulo 2, mostra as consequências dessa verdade. A advertência contra o engano nasce da convicção de que Cristo não pode ser deslocado.
“Tenham cuidado para que ninguém os escravize.”
A linguagem de Paulo é forte. A ideia é a de alguém ser levado como presa, capturado e conduzido para longe. Ele não está preocupado apenas com uma informação incorreta, mas com uma ideia que domina a pessoa.
É assim que muitas formas de escravidão intelectual começam. Uma ideia chega como simples opinião. Depois se transforma em convicção. A convicção passa a orientar escolhas, valores e julgamentos. Finalmente, aquilo que parecia apenas uma ideia passa a governar a vida.
Podemos ser escravizados por uma ideologia, por uma tradição, pela opinião dos outros ou por uma visão de mundo. E há um perigo ainda mais sério: transformar uma interpretação religiosa em autoridade absoluta e colocá-la acima da própria Palavra de Deus.
Por isso, Paulo não diz simplesmente: “Não estudem filosofia”. Ele diz: “Tenham cuidado”. O cristão não é chamado à ignorância, mas ao discernimento. A fé cristã não precisa fugir de perguntas difíceis, nem temer a filosofia, a ciência, a história, a psicologia ou a sociologia. O problema não é pensar. O problema é permitir que qualquer pensamento governe nossa fé sem ser confrontado com Cristo.
O critério é outro: aquilo que pensamos está em Cristo?
Jesus enfrentou o perigo das tradições humanas ao declarar: “Vocês abandonam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições dos homens” (Mc 7:8). O alerta continua atual. Uma prática pode começar como costume e terminar como regra. Uma preferência pessoal pode ganhar status de doutrina. Uma interpretação pessoal pode ser tratada como verdade absoluta.
Por isso, não basta perguntar: “Isso sempre foi feito?” É preciso perguntar: “Isso é coerente com a Palavra de Deus e com o evangelho de Cristo?” A antiguidade de uma tradição não prova sua verdade. Da mesma forma, a novidade de uma ideia não prova seu erro. O critério continua sendo Cristo e sua Palavra.
“Mas não em Cristo.”
Talvez aqui esteja o coração de Colossenses 2:8. O problema fundamental daquela filosofia era que ela não estava “em Cristo”.
Poucos versículos depois, Paulo afirma: “Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9). Essa declaração é decisiva. Cristo não é apenas o começo da vida espiritual. Ele não é uma etapa que precisa ser completada por algum conhecimento secreto. Ele não é insuficiente. Em Cristo habita toda a plenitude da divindade. Cristo é suficiente.
Essa verdade precisa ser protegida porque o mesmo problema continua aparecendo. Sempre que acrescentamos algo à obra de Cristo como condição para alcançar a aceitação de Deus, diminuímos a suficiência da graça. Sempre que imaginamos que uma experiência extraordinária pode nos levar a uma plenitude que Cristo não poderia oferecer, diminuímos Cristo. Sempre que colocamos uma autoridade humana no lugar da autoridade das Escrituras, deslocamos o centro da fé.
A vida cristã começa em Cristo, permanece em Cristo e encontra sua plenitude em Cristo.
Mas como viver Colossenses 2:8 hoje?
Talvez seja necessário começar por aquilo que permitimos entrar em nossa mente. Vivemos cercados por informações. Todos os dias somos expostos a opiniões, vídeos, discursos políticos, teorias, mensagens religiosas, interpretações bíblicas, fórmulas de sucesso e promessas de felicidade.
Isso vale também para as tradições. Nem tudo o que é antigo é verdadeiro. Nem tudo o que é moderno é falso. O cristão precisa aprender a discernir.
Discernimento exige mais do que decorar versículos. Exige conhecer as Escrituras, compreender o evangelho e desenvolver uma visão de mundo coerente com Cristo. Uma fé superficial fica vulnerável a qualquer novidade. Uma fé profundamente enraizada em Cristo consegue ouvir, avaliar e rejeitar aquilo que contradiz o evangelho.
Paulo havia acabado de dizer aos colossenses que eles deveriam estar “enraizados e edificados nEle” (Cl 2:7). Não por acaso, imediatamente depois vem a advertência contra aquilo que poderia levá-los para longe de Cristo. Quem está profundamente enraizado não precisa ter medo de ouvir. Precisa aprender a discernir.
As filosofias enganosas raramente chegam dizendo: “Estou aqui para afastá-lo de Cristo”. Elas chegam de forma mais sutil. Aparecem em discursos que prometem liberdade, mas produzem escravidão. Em fórmulas de autoajuda que colocam o ser humano no centro. Em ideologias e tendências culturais que moldam nossos desejos. E podem surgir até dentro da religião, usando linguagem cristã enquanto retiram Cristo do centro.
Por isso, precisamos de uma fé que pensa e de uma mente que discerne. Precisamos examinar nossas fontes de autoridade e perguntar quem está formando nossas convicções, quais valores estão moldando nossas escolhas e se aquilo que acreditamos realmente nos conduz a Cristo.
A liberdade cristã não consiste em aceitar qualquer pensamento que pareça bonito. Também não consiste em fechar a mente para tudo o que é diferente. Liberdade é não pertencer a nenhuma ideia que nos afaste de Cristo. É ter a mente aberta para a verdade e o coração submetido ao Senhor.
Paulo aponta para uma realidade ainda maior: em Cristo estão “escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2:3). O cristianismo não nos chama a abandonar a busca pela verdade. Chama-nos a reconhecer onde a verdade encontra seu centro. Podemos estudar, perguntar, investigar, dialogar e pensar profundamente. Podemos até revisar nossas próprias conclusões. Mas não podemos perder o centro.
Toda verdadeira sabedoria deve ser avaliada à luz de Cristo. E nenhuma sabedoria que exige o abandono de Cristo pode ocupar o lugar da verdade.
No fim, a grande questão de Colossenses 2:8 não é saber se somos inteligentes, cultos ou bem-informados. É saber quem governa nossa mente.
Podemos conhecer muitas coisas e ainda perder o essencial. Podemos acumular informações e permanecer espiritualmente desorientados. Podemos dominar conceitos e perder a verdade. Podemos defender tradições e abandonar o evangelho.
Por isso, a pergunta permanece: quem governa a nossa mente? Paulo nos conduz de volta ao centro. Não à tradição pela tradição. Não à novidade pela novidade. Não à filosofia pela filosofia. Não à experiência pela experiência.
Cristo. É nele que a igreja encontra sua verdade. É nele que a fé encontra sua segurança. É nele que a sabedoria encontra seu centro. E é nele que o cristão encontra a liberdade de não ser escravizado por aquilo que promete muito, mas não pode oferecer aquilo que somente Cristo pode dar.
Sola Scriptura - Solus Christus - Sola gratia - Sola fide e Soli Deo glória
Christós kyrios

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