domingo, 20 de setembro de 2026

O limite da provação e a fidelidade do escape

Está escrito:

“Não sobreveio a vocês nenhuma tentação que não fosse humana, mas Deus é fiel e não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar; pelo contrário, juntamente com a tentação proverá livramento, para que vocês a possam suportar” 1 Coríntios 10:13 (NAA).

 

1 Coríntios 10:13 é um dos textos mais conhecidos quando falamos de tentação, sofrimento e perseverança. Muitas vezes, porém, ele é interpretado como se Paulo estivesse prometendo que Deus jamais permitirá que o cristão atravesse uma situação que ultrapasse seus limites emocionais ou físicos. O contexto mostra algo mais profundo. 

Paulo não está oferecendo uma fórmula para uma vida sem crises. Ele está ensinando que, em meio à prova, o cristão nunca está entregue ao acaso. Deus permanece fiel, estabelece limites e provê os meios necessários para que seu povo permaneça firme.

Para compreender a força desse texto, precisamos voltar à Corinto do primeiro século. A cidade era uma metrópole do mundo greco-romano, marcada pelo comércio, pela diversidade cultural e por uma vida social profundamente ligada à religião. Festivais, refeições comunitárias e banquetes realizados em templos pagãos faziam parte da própria dinâmica da vida social e econômica da cidade.

Os cristãos coríntios enfrentavam, então, uma questão delicada: como viver no mundo sem absorver seus valores e sua idolatria? 

Alguns membros da igreja, confiantes em seu “conhecimento” espiritual e em sua liberdade em Cristo, acreditavam que poderiam participar de refeições em templos pagãos sem sofrer qualquer prejuízo espiritual. Paulo, porém, percebe o perigo dessa autoconfiança. O problema não era apenas participar de uma refeição. Era a possibilidade de transformar a liberdade cristã em uma porta para a infidelidade.

Nos versículos 1 a 12 do capítulo 10, Paulo recorre à história de Israel no deserto. Os israelitas também haviam recebido privilégios espirituais: foram batizados em Moisés, comeram do alimento espiritual e beberam da rocha espiritual. Ainda assim, muitos deles caíram por causa da idolatria, da imoralidade e da murmuração. A advertência chega ao seu ponto mais forte no versículo 12: “Aquele que pensa estar de pé, tome cuidado para que não caia”. 

É nesse contexto que surge o versículo 13. Depois de uma advertência severa, Paulo oferece uma palavra de sobriedade, mas também de esperança. O cristão precisa vigiar, mas não precisa viver dominado pelo desespero.

A primeira afirmação é: “Não sobreveio a vocês nenhuma tentação que não fosse humana”. O sentido da palavra grega para tentação precisa ser determinado pelo contexto. Aqui, está relacionado às situações que colocam a fidelidade do cristão à prova, especialmente diante da idolatria e da autossuficiência que ameaçavam a igreja de Corinto.  

Paulo, portanto, não está dizendo que nossas tentações são pequenas, fáceis ou insignificantes. Ele está dizendo que eles pertencem à realidade humana. O cristão não enfrenta uma experiência tão excepcional que ninguém mais possa compreender. A luta contra o pecado, a pressão para ceder e a necessidade de permanecer fiel fazem parte da experiência humana.

Essa afirmação é importante porque, muitas vezes, o sofrimento nos leva a pensar: “Ninguém entende o que estou passando”. Paulo nos lembra de que não somos os únicos a enfrentar esse tipo de batalha.

A segunda afirmação é o verdadeiro centro do texto: “Mas Deus é fiel”. Observe a mudança de foco. Paulo não diz: “vocês são fortes”. Ele diz: “Deus é fiel”. Essa diferença é fundamental. A segurança cristã não nasce da autoconfiança, mas da confiança no caráter de Deus.

É justamente aqui que o versículo confronta uma das maiores fragilidades humanas: a tendência de confiar excessivamente em nós mesmos. Os coríntios pensavam que seu conhecimento e sua liberdade os tornavam suficientemente maduros para se aproximarem do perigo sem serem afetados por ele. Paulo mostra que ninguém deve confiar tanto em si mesmo a ponto de esquecer sua própria vulnerabilidade. Nossa esperança não está em sermos fortes o suficiente. Está em Deus ser fiel.

A terceira afirmação diz: “não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar”. Aqui precisamos fazer uma distinção importante. O texto não significa que nenhum cristão jamais experimentará uma dor que, humanamente falando, pareça insuportável. Paulo, por exemplo, afirma em 2 Coríntios 1:8 que passou por uma aflição tão intensa na Ásia que chegou a desesperar “até da própria vida”. Por isso, seria inadequado transformar 1 Coríntios 10:13 em uma promessa de que Deus jamais permitirá sofrimento psicológico, físico ou emocional acima de determinado limite humano.

O assunto imediato de Paulo é a tentação que coloca a fidelidade a Deus em risco. O foco não está em estabelecer um limite matemático para todo sofrimento humano, mas em afirmar que Deus não abandona seu povo diante da tentação.

Isso também significa que “poder suportar” não deve ser entendido como uma capacidade natural e autônoma. A capacidade de permanecer firme é sustentada pela graça de Deus. Quando a nossa força termina, a fidelidade de Deus não termina. 

A quarta afirmação é igualmente importante: “juntamente com a tentação proverá livramento”. O livramento não significa necessariamente remoção imediata da dificuldade. Em algumas situações, Deus abre a porta retirando a circunstância. Em outras, ele abre a porta concedendo sabedoria para tomar uma decisão, força para resistir, pessoas que oferecem ajuda, disciplina para estabelecer limites, coragem para pedir socorro ou graça para permanecer fiel. Dentro da própria circunstância. Às vezes, o escape é sair. Outras vezes, é permanecer firme.

Essa compreensão é coerente com o próprio contexto de 1 Coríntios 10. Paulo não está ensinando os cristãos a procurar o limite da tentação para descobrir até onde conseguem chegar. Pelo contrário, depois de falar sobre a fidelidade de Deus, ele afirma de maneira direta: “Fujam da idolatria” (1 Coríntios 10:14).

Há uma lição pastoral muito prática aqui. O caminho de escape oferecido por Deus pode começar com uma decisão aparentemente simples: afastar-se de determinado ambiente, estabelecer um limite, pedir ajuda, confessar uma fraqueza, abandonar um hábito, interromper uma conversa ou dizer “não” antes que seja tarde. A graça de Deus não elimina nossa responsabilidade. Ela nos capacita a responder corretamente.  

E como tudo isso se aplica ao cristão de hoje?

As tentações mudaram de aparência, mas continuam revelando a mesma fragilidade humana: dinheiro, sexualidade, poder, vaidade, ressentimento, individualismo, necessidade de reconhecimento, vícios, intolerância e tantas outras coisas podem ocupar o lugar que pertence somente a Deus.

A mensagem de Paulo, porém, continua a mesma: “Deus é fiel”.

Essa talvez seja a frase que mais precisamos guardar quando a tentação parece maior do que nossa capacidade de resistir. Isso também nos ensina a não brincar com a tentação. Não faz sentido pedir a Deus força para resistir quando deliberadamente permanecemos em situações que alimentam nossa fraqueza. Às vezes, a resposta de Deus à nossa oração será justamente a coragem de sair. 

O cristão não demonstra maturidade permanecendo perigosamente próximo do pecado para provar que é forte. Maturidade também é reconhecer a propria fragilidade e saber quando é hora de fugir.  Paulo diz explicitamente: “Fujam da idolatria” (1Co 10:14). 

O caminho de escape oferecido por Deus muitas vezes começa com uma atitude simples e corajosa: sair de perto, estabelecer limites, pedir ajuda, confessar o pecado, abandonar determinado ambiente ou dizer não antes que seja tarde.

A fé cristã não elimina a luta. Ela muda a maneira como enfrentamos a luta. O cristão pode atravessar dias difíceis sabendo que a tentação não tem a palavra final. Deus continua presente. Sua graça não é insuficiente. E, quando parece não haver saída, ainda existe um Deus fiel trabalhando no meio da prova.

Na vida diária, 1 Coríntios 10:13 nos protege de dois erros igualmente perigosos: a presução e o desespero.

A presução diz: “Comigo não vai acontecer”. Foi esse o espírito que Paulo confrontou nos coríntios. É a confiança exagerada na propria capacidade, que nos leva a nos expor desnecessariamente a ambientes, hábitos, relacionamentos e situações que alimentam o pecado. Por isso, o alerta permanece: “Aquele que pensa estar de pé, tome Cuidado para que não caia”(1 Co 10:12).

O desespero, por outro lado, diz: “não existe saída para mim”. É a sensação de que nossa situação é única, de que ninguém entende nossa luta e de que ceder ao pecado se tornou  inevitável. Paulo confronta também esse pensamento. Existe uma saída. 

Ela pode assumir diferentes formas. Pode ser uma oração feita em silêncio. Pode ser a conversa honesta com alguém maduro na fé. Pode ser o apoio da comunidade cristã. Pode ser a decisão de abandonar determinado ambiente. Pode ser a disciplina de mudar um hábito. Pode ser a Palavra de Deus trazendo luz quando a mente está confusa.

O escape de Deus nem sempre parece extraordinário. Muitas vezes, ele chega na forma de uma decisão simples que exige coragem.

Viver 1 Coríntios 10:13 no dia a dia é trocar a autoconfiança pela confiança em Deus. É reconhecer que a tentação é real, que nossa vulnerabilidade também é real, mas que nenhuma dessas coisas é maior do que a fidelidade de Deus. A fé cristã não elimina a luta. Ela muda a maneira como a enfrentamos.

Podemos atravessar dias difíceis sem acreditar que estamos abandonados. Podemos reconhecer nossa fraqueza sem concluir que estamos condenados à queda. Podemos admitir que a tentação é forte sem acreditar que ela tem a palavra final.

No fim, 1 Coríntios 10:13 não é uma promessa de que jamais enfrentaremos situações difíceis. É uma promessa muito mais profunda: em nenhuma delas estaremos fora do alcance da fidelidade de Deus. Quando a tentação chegar, Deus continuará sendo fiel. E quando nossa força parecer pequena, sua graça continuará suficiente.


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Christós kyrios


domingo, 13 de setembro de 2026

Uma só voz para a glória de Deus


Está escrito:

“Que o Deus paciente e encorajador dê a vocês um espírito de unidade, segundo Cristo Jesus, para que, juntos e a uma só voz, glorifiquem ao Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 15:5-6, NVI).

Poucos temas são tão necessários à Igreja de hoje quanto a unidade. Vivemos em uma época marcada por polarizações, disputas de opinião e uma crescente dificuldade de conviver com quem pensa diferente de nós. E isso não acontece apenas fora da Igreja. Muitas vezes, as mesmas tensões atravessam nossas comunidades, famílias e relacionamentos.

Por isso, Romanos 15:5-6 continua sendo um texto profundamente atual. Paulo não escreve para uma igreja onde todos pensavam da mesma maneira. Ele escreve para uma comunidade formada por pessoas diferentes com histórias, tradições e convicções distintas, e mostra que essas diferenças não precisam necessariamente transformar-se em divisão. 

Para compreender melhor suas palavras, precisamos olhar para o contexto da igreja de Roma. Paulo escreve a Carta aos Romanos provavelmente em meados da década de 50 d.C., tradicionalmente associado ao período em que se encontrava em Corinto. Ele ainda pretendia viajar a Jerusalém e, posteriormente, chegar a Roma e seguir em direção à Espanha (Rm 15:23-24).

A comunidade cristã de Roma reunia judeus e gentios. Essa diversidade trouxe consigo algumas tensões. A expulsão de judeus de Roma durante o governo do imperador Cláudio, por volta de 49 d.C., alterou a composição das comunidades judaicas e cristãs da cidade. Áquila e Pricila, por exemplo, estavam entre aqueles que deixaram Roma e foram para Corinto (At 18:2). Depois da morte de Cláudio, em 54 d.C., muitos judeus puderam retornar.

Nesse intervalo, comunidades cristãs de maioria gentílica haviam se desenvolvido. O reencontro entre cristãos de diferentes tradições certamente exigiam mais do que boa vontade. Era necessário aprender novamente a conviver.

É nesse cenário que precisamos ler Romanos 14 e 15. As divergências envolviam questões como alimentos, dias considerados especiais e práticas relacionadas à tradição judaica. Paulo identifica os grupos como “fortes” e “fracos” na fé, mas se recusa a transformar essas diferenças em uma guerra dentro da Igreja. Pelo contrário, sua orientação é direta: “Aceitem o que é fraco na fé, sem discutir assuntos controvertidos” (Rm 14:1).

Paulo não está dizendo que a verdade não importa. Tampouco está afirmando que todas as posições são igualmente corretas. Seu argumento é outro: existem questões nas quais cristãos sinceros podem ter convicções diferentes sem que isso destrua a comunhão.

Por isso, Romanos 15:5-6 não aparece como uma frase isolada. Ele é o resultado de uma argumentação que começa com a responsabilidade dos cristãos de suportarem uns aos outros (15:1), passa pelo exemplo de Cristo, que “não agradou a si próprio” (15:3), e chega a oração para que Deus conceda à comunidade um espírito de unidade.

Paulo começa chamando Deus de “paciente e encorajador”. A expressão retoma aquilo que havia sido apresentado no versículo anterior: as Escrituras produzem perseverança e encorajamento (Rm 15:4). Agora, Paulo olha para a fonte de tudo isso. Deus é aquele que sustenta seu povo quando a convivência se torna difícil.

Essa observação é importante. A unidade cristã não nasce simplesmente de esforço humano, habilidade diplomática ou capacidade de negociação. Ela é fruto da graça de Deus operando no coração de pessoas que aprenderam a viver segundo Cristo. 

Em seguida, Paulo pede que os cristãos tenham “um espírito de unidade”. Literalmente: “pensar a mesma coisa”. Não significa que todos precisem concordar em cada detalhe. Significa que devem permitir que Cristo determine a maneira como tratam uns aos outros. A questão, portanto, não é apenas o que pensamos, mas como pensamos uns dos outros. 

É possível discordar e continuar amando. É possível ter convicções diferentes sem transformar o outro em inimigo. É possível defender aquilo em que acreditamos sem tratar quem pensa diferente como alguém inferior ou indigno de nossa comunhão. 

Douglas Moo e Thomas Schreiner destacam que a unidade buscada por Paulo não significa necessariamente unanimidade em todas as questões, mas uma disposição mental para o acolhimento e amor fundamentado em Cristo.

Paulo acrescenta uma expressão decisiva: “segundo Cristo Jesus”. Cristo é o padrão da unidade. Não se trata de uma convivência baseada apenas na tolerância social ou em uma tentativa de evitar conflitos. O modelo é o próprio Jesus, que, conforme Paulo havia acabado de afirmar, “não agradou a si próprio” (Rm 15:3). 

Aqui está uma das grandes lições do texto: maturidade cristã não é apenas saber quais são os nossos direitos. É saber quando podemos abrir mão deles por amor. O cristão maduro não pergunta somente: “Eu posso fazer isso?”. Ele também pergunta: “O que a minha atitude produzirá na vida do meu irmão?”. Essa é uma mudança profunda de perspectiva.

Em seguida, Paulo apresenta o propósito: “para que, juntos e a uma só voz, glorifiquem ao Deus e Pai”. Aqui encontramos o coração da passagem: a unidade não é o objetivo final. A glória de Deus é. A Igreja não precisa permanecer unida apenas para preservar sua imagem, evitar conflitos ou manter uma aparência de organização.  Ela precisa viver em unidade para que sua vida comunitária testemunhe a realidade do evangelho. 

Deus não criou uma Igreja formada por pessoas iguais. Há diferenças de personalidade, história, cultura, idade, experiência, dons e preferências. A beleza da comunidade cristã não está em eliminar essas diferenças, mas em aprender a submetê-los ao senhorio de Cristo. 

E Paulo continua dizendo: “Portanto, aceitem uns aos outros, como Cristo os aceitou” (Rm 15:7). A lógica é simples e profunda. Cristo nos acolheu. Portanto, acolhamos uns aos outros. Ele não os recebeu porque éramos iguais, perfeitos ou merecedores. Ele nos recebeu pela graça. E essa graça recebida deve transformar a maneira como recebemos nossos irmãos. 

Esse princípio encontra eco em outras partes do Novo Testamento. Jesus orou para que seus discípulos fossem um “para que o mundo creia” (Jo 17:21). Paulo afirmou que existe “um só corpo e um só Espírito” (Ef 4:4-6). Aos filipenses, escreveu: “tenham o mesmo modo de pensar, tenho o mesmo amor” (Fp 2:2), e imediatamente apontou para a humildade de Cristo como fundamento dessa postura (Fp 2:5-8).

A unidade, portanto, não é uma estratégia administrativa da Igreja. É uma consequência do evangelho. O mesmo Cristo que nos reconcilia com Deus nos ensina a caminhar com pessoas diferentes de nós.

E talvez seja justamente aqui que Romanos 15:5-6 se torne mais desconfortável para nós. É relativamente fácil falar sobre unidade quando estamos cercados por pessoas que concordam conosco. O verdadeiro teste aparece quando encontramos alguém que pensa diferente. 

Na família, na igreja, nos grupos de estudo, nas redes sociais, nas conversas sobre política, nas discussões sobre estilos de culto, nas diferenças entre gerações. Nesses espaços, podemos defender uma posição correta de uma maneira espiritualmente errada. Podemos ter razão em determinado assunto e, ainda assim, pecar na maneira como tratamos quem discorda de nós.

Por isso, a pergunta de Paulo não é apenas: “você está certo?”. Existe uma pergunta anterior e mais profunda: “Sua maneira de agir está de acordo com Cristo?”. Essa pergunta muda muita coisa. 

Viver Romanos 15:5-6 hoje significa aprender a ouvir antes de responder, suportar antes de descartar, acolher antes de julgar e, quando necessário, abrir mão de preferências pessoais por amor. Significa também aprender a distinguir aquilo que é essencial à fé daquilo que pertence ao campo das convicções pessoais. 

Nem toda diferença precisa transformar-se em confronto. Nem toda discordância precisa produzir afastamento. Nem toda opinião diferente precisa ser tratada como ameaça. A verdadeira unidade não exige que todos tenham a mesma personalidade, os mesmos costumes, as mesmas preferências políticas ou o mesmo estilo de culto. Ela exige algo mais profundo:  que todos estejam submetidos ao mesmo Senhor.

Por isso, podemos pensar em três atitudes fundamentais para viver Rm 15:5-6 em nosso tempo, marcado por divergências políticas e polarizações ideológicas:

1. Colocar o centro acima das margens. 

A comunhão cristã não exige que abandonemos todas as nossas convicções pessoais. Existe questões importantes sobre as quais devemos pensar e nos posicionar. Mas nem tudo possui o mesmo peso. O evangelho precisa ocupar o centro. Questões secundárias não podem receber o lugar que pertence a Cristo. Quando nossas preferências se tornam maiores do que nossa identidade em Cristo, aquilo que deveria ser apenas uma diferença passa a ser motivo de divisão.

2. Aprender a exerccer a paciência. 

Paciência cristã não significa concordar com tudo. Significa permanecer em amor mesmo quando a convivência é difícil. Há pessoas que não pensam como nós. Há irmãos que possuem outro ritmo, outra história e outra maneira de enxergar determinadas questões. A maturidade cristã nos ensina a não descartá-los simplesmente porque são diferentes. A paciência é uma forma prática de amor.

3. Aprender a cantar a mesma partitura. 

Um coral não produz harmonia porque todas as vozes são iguais. Pelo contrário. Elas possuem timbres, alcances e características diferentes. A harmonia acontece porque vozes diferentes cantam a mesma partitura e seguem a mesma regência. Assim também é a Igreja. Somos diferentes, mas pertencemos ao mesmo corpo. Temos histórias diferentes, mas fomos alcançados pela mesma graça. Temos dons diferentes, mas servimos ao mesmo Senhor. 

Nossa diversidade não precisa destruir nossa unidade. Pode, pela graça de Deus, tornar-se parte da beleza daquilo que Ele está fazendo em nós. Romanos 15:5-6 nos lembra que o testemunho cristão não está apenas naquilo que proclamamos com os lábios. Está também na maneira como tratamos aqueles que caminham ao nosso lado. 

Uma Igreja que fala sobre amor, mas vive em constante hostilidade, contradiz sua própria mensagem. Uma Igreja que proclama reconciliação, mas não consegue conviver com diferenças, enfraquece seu testemunho. Mas quando pessoas diferentes aprendem a viver juntas segundo Cristo alguma coisa extraordinária acontece: suas muitas vozes começam a formar uma só voz.

E essa voz não existe para exaltar a Igreja. Existe para glorificar a Deus. No fim, talvez seja essa a grande mensagem de Romanos 15:5-6: a Igreja não precisa ser formada por pessoas que pensam exatamente da mesma maneira. Precisa ser formada por pessoas que aprenderam a pensar e viver segundo Cristo.

Quando isso acontece, a diversidade deixa de ser uma ameaça e pode tornar-se expressão da graça. Então, pessoas diferentes caminham juntas. Vozes diferentes cantam juntas. Corações diferentes adoram juntos. E, quando a Igreja vive assim, suas muitas vozes tornam-se uma só voz para a glória de Deus.

Porque a verdadeira unidade não acontece quando todos se tornam iguais. Ela acontece quando pessoas diferentes aprendem, em Cristo, a caminhar juntas.

Referências:

MOO, Douglas J. Uma teologia de Paulo e suas cartas: a dádiva do novo domínio em Cristo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2025.

SCHREINER, Thomas R. Romans. Grand Rapids: Baker Academic, 2018.

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Christós kyrios 


domingo, 6 de setembro de 2026

Quando a sabedoria nos afasta de Cristo

 

Está escrito: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize por meio de filosofias inúteis e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, mas não em Cristo.” (Colossenses 2:8, NVI)

 

Há textos bíblicos que parecem atravessar os séculos para nos encontrar exatamente onde estamos. Colossenses 2:8 é um deles. A advertência de Paulo toca uma questão decisiva: quem tem autoridade para formar nossa maneira de pensar, decidir e viver?

O perigo estava nessa mistura. Cristo continuava sendo mencionado, mas corria o risco de deixar de ser suficiente. Algo estava sendo acrescentado ao evangelho: conhecimentos especiais, experiências espirituais, práticas religiosas e regras humanas. Quando aquilo que deveria ser secundário ocupa o lugar de Cristo, o evangelho deixa de ser o centro.

Por isso, antes de advertir, Paulo apresenta Cristo. Em Colossenses 1:15-20, ele coloca Jesus no centro da criação, da redenção, da igreja e da reconciliação. No capítulo 2, mostra as consequências dessa verdade. A advertência contra o engano nasce da convicção de que Cristo não pode ser deslocado.

“Tenham cuidado para que ninguém os escravize.”

A linguagem de Paulo é forte. A ideia é a de alguém ser levado como presa, capturado e conduzido para longe. Ele não está preocupado apenas com uma informação incorreta, mas com uma ideia que domina a pessoa.

É assim que muitas formas de escravidão intelectual começam. Uma ideia chega como simples opinião. Depois se transforma em convicção. A convicção passa a orientar escolhas, valores e julgamentos. Finalmente, aquilo que parecia apenas uma ideia passa a governar a vida.

Podemos ser escravizados por uma ideologia, por uma tradição, pela opinião dos outros ou por uma visão de mundo. E há um perigo ainda mais sério: transformar uma interpretação religiosa em autoridade absoluta e colocá-la acima da própria Palavra de Deus.

Por isso, Paulo não diz simplesmente: “Não estudem filosofia”. Ele diz: “Tenham cuidado”. O cristão não é chamado à ignorância, mas ao discernimento. A fé cristã não precisa fugir de perguntas difíceis, nem temer a filosofia, a ciência, a história, a psicologia ou a sociologia. O problema não é pensar. O problema é permitir que qualquer pensamento governe nossa fé sem ser confrontado com Cristo.

O critério é outro: aquilo que pensamos está em Cristo?

Jesus enfrentou o perigo das tradições humanas ao declarar: “Vocês abandonam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições dos homens” (Mc 7:8). O alerta continua atual. Uma prática pode começar como costume e terminar como regra. Uma preferência pessoal pode ganhar status de doutrina. Uma interpretação pessoal pode ser tratada como verdade absoluta.

Por isso, não basta perguntar: “Isso sempre foi feito?” É preciso perguntar: “Isso é coerente com a Palavra de Deus e com o evangelho de Cristo?” A antiguidade de uma tradição não prova sua verdade. Da mesma forma, a novidade de uma ideia não prova seu erro. O critério continua sendo Cristo e sua Palavra.

“Mas não em Cristo.”

Talvez aqui esteja o coração de Colossenses 2:8. O problema fundamental daquela filosofia era que ela não estava “em Cristo”.

Poucos versículos depois, Paulo afirma: “Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9). Essa declaração é decisiva. Cristo não é apenas o começo da vida espiritual. Ele não é uma etapa que precisa ser completada por algum conhecimento secreto. Ele não é insuficiente. Em Cristo habita toda a plenitude da divindade. Cristo é suficiente.

Essa verdade precisa ser protegida porque o mesmo problema continua aparecendo. Sempre que acrescentamos algo à obra de Cristo como condição para alcançar a aceitação de Deus, diminuímos a suficiência da graça. Sempre que imaginamos que uma experiência extraordinária pode nos levar a uma plenitude que Cristo não poderia oferecer, diminuímos Cristo. Sempre que colocamos uma autoridade humana no lugar da autoridade das Escrituras, deslocamos o centro da fé.

A vida cristã começa em Cristo, permanece em Cristo e encontra sua plenitude em Cristo.

Mas como viver Colossenses 2:8 hoje?

Talvez seja necessário começar por aquilo que permitimos entrar em nossa mente. Vivemos cercados por informações. Todos os dias somos expostos a opiniões, vídeos, discursos políticos, teorias, mensagens religiosas, interpretações bíblicas, fórmulas de sucesso e promessas de felicidade.

Isso vale também para as tradições. Nem tudo o que é antigo é verdadeiro. Nem tudo o que é moderno é falso. O cristão precisa aprender a discernir.

Discernimento exige mais do que decorar versículos. Exige conhecer as Escrituras, compreender o evangelho e desenvolver uma visão de mundo coerente com Cristo. Uma fé superficial fica vulnerável a qualquer novidade. Uma fé profundamente enraizada em Cristo consegue ouvir, avaliar e rejeitar aquilo que contradiz o evangelho.

Paulo havia acabado de dizer aos colossenses que eles deveriam estar “enraizados e edificados nEle” (Cl 2:7). Não por acaso, imediatamente depois vem a advertência contra aquilo que poderia levá-los para longe de Cristo. Quem está profundamente enraizado não precisa ter medo de ouvir. Precisa aprender a discernir.

As filosofias enganosas raramente chegam dizendo: “Estou aqui para afastá-lo de Cristo”. Elas chegam de forma mais sutil. Aparecem em discursos que prometem liberdade, mas produzem escravidão. Em fórmulas de autoajuda que colocam o ser humano no centro. Em ideologias e tendências culturais que moldam nossos desejos. E podem surgir até dentro da religião, usando linguagem cristã enquanto retiram Cristo do centro.

Por isso, precisamos de uma fé que pensa e de uma mente que discerne. Precisamos examinar nossas fontes de autoridade e perguntar quem está formando nossas convicções, quais valores estão moldando nossas escolhas e se aquilo que acreditamos realmente nos conduz a Cristo.

A liberdade cristã não consiste em aceitar qualquer pensamento que pareça bonito. Também não consiste em fechar a mente para tudo o que é diferente. Liberdade é não pertencer a nenhuma ideia que nos afaste de Cristo. É ter a mente aberta para a verdade e o coração submetido ao Senhor.

Paulo aponta para uma realidade ainda maior: em Cristo estão “escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2:3). O cristianismo não nos chama a abandonar a busca pela verdade. Chama-nos a reconhecer onde a verdade encontra seu centro. Podemos estudar, perguntar, investigar, dialogar e pensar profundamente. Podemos até revisar nossas próprias conclusões. Mas não podemos perder o centro.

Toda verdadeira sabedoria deve ser avaliada à luz de Cristo. E nenhuma sabedoria que exige o abandono de Cristo pode ocupar o lugar da verdade.

No fim, a grande questão de Colossenses 2:8 não é saber se somos inteligentes, cultos ou bem-informados. É saber quem governa nossa mente.

Podemos conhecer muitas coisas e ainda perder o essencial. Podemos acumular informações e permanecer espiritualmente desorientados. Podemos dominar conceitos e perder a verdade. Podemos defender tradições e abandonar o evangelho.

Por isso, a pergunta permanece: quem governa a nossa mente? Paulo nos conduz de volta ao centro. Não à tradição pela tradição. Não à novidade pela novidade. Não à filosofia pela filosofia. Não à experiência pela experiência.

Cristo. É nele que a igreja encontra sua verdade. É nele que a fé encontra sua segurança. É nele que a sabedoria encontra seu centro. E é nele que o cristão encontra a liberdade de não ser escravizado por aquilo que promete muito, mas não pode oferecer aquilo que somente Cristo pode dar.

 

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