domingo, 19 de julho de 2026

Quietude em tempos de guerra


Está escrito
: “Parem de lutar e saibam que eu sou Deus! Serei exaltado entre as nações, serei exaltado na terra” (Salmo 46:10, NVI).

 

O Salmo 46 é um dos hinos mais majestoso de todo o Saltério. Suas palavras ecoam uma confiança inabalável em Deus, capaz de atravessar gerações e sustentar a fé do povo de Deus em tempos de crise. Não por acaso, esse salmo serviu de inspiração para que o reformador Martinho Lutero compusesse o famoso hino “Castelo Forte é o Nosso Deus”. 

O que mais me chama a atenção é que, no centro desse cântico de confiança, encontramos uma ordem divina que parece contrariar toda lógica humana: quando tudo parece fora de controle, Deus continua governando soberanamente todas as coisas.

Para compreender melhor a força dessa mensagem, precisamos olhar para o contexto histórico do salmo. Embora o cabeçalho o atribua aos filhos de Corá, muitos estudiosos entendem que o cenário mais provável para sua composição tenha sido o cerco de Jerusalém pelo rei assírio Senaqueribe, por volta de 701 a.C., durante o reinado de Ezequias.

Imagine a situação. A Assíria era a maior potência militar do mundo antigo. Seu exército já havia destruído o Reino do Norte, Israel, e avançava de forma avassaladora sobre Judá. Cidades fortificadas caíam uma após outra. Então, Jerusalém se vê cercada por uma força militar esmagadora. 

Humanamente falando, não havia razões para otimismo. O isolamento político era evidente, os recursos começavam a escassear e a ameaça de destruição total parecia inevitável.

É nesse ambiente de medo e incerteza que o salmista escreve. Por isso, quando ele declara que “ainda que a terra trema e os montes afundem no coração dos mares” (Salmo 46:2), ele não está descrevendo apenas um desastre natural. Ele está retratando a sensação de que o próprio mundo estava desmoronando diante dos olhos do povo. Para muitos, o avanço assírio parecia representar o colapso da ordem estabelecida por Deus.

Ao chegarmos ao versículo 10, ocorre uma mudança impressionante. Até esse momento, o salmista fala sobre Deus. Agora, é o próprio Deus quem interrompe o poema e toma a palavra.

“Parem de lutar...”

A expressão hebraica pode ser traduzida como “soltem”, “larguem”, “deixem cair as mãos” ou “cessem seus esforços”. Deus não está se dirigindo apenas ao seu povo, mas também às nações que insistem em desafiar sua autoridade. 

A ideia é clara: parem de resistir; abandonem suas guerras; cessem sua rebelião; reconheçam quem realmente governa a história. 

O teólogo Derek Kidner observa que Deus convoca toda a humanidade a abandonar sua arrogância diante do Seu governo soberano.

“...e saibam que eu sou Deus”

O verbo “saber” possui um significado muito mais profundo do que simplesmente adquirir informação. No pensamento hebraico, conhecer envolve reconhecer, experimentar e se render à realidade de quem Deus é. 

Deus não deseja apenas demonstrar Seu poder. Seu propósito é conduzir homens e mulheres ao reconhecimento da Sua majestade.

“Serei exaltado entre as nações”

Essa declaração aponta tanto para o presente quanto para o futura. No contexto imediato, Deus afirma que nenhum império humano é capaz de frustrar Seus propósitos. Em uma perspectiva profética, o versículo antecipa o governo universal do Messias e o dia em que as nações reconhecerão a supremacia do Senhor. Ou seja, o salmista olha além da crise momentânea e contempla a vitória definitiva do Reino de Deus.

“Serei exaltado na terra”

A repetição reforça uma das grandes verdades da teologia bíblica: Deus não governa apenas Israel; Ele governa toda a criação. O Senhor não é um deus local, regional ou tribal. Ele é o Rei absoluto sobre todas as nações, culturas e épocas da história. 

João Calvino observou que este versículo funciona como um lembrete de que os seres humanos podem se agitar violentamente contra Deus, mas jamais conseguirão frustrar Seus decretos eternos.

O Salmo 46 apresenta um princípio universal: Deus confronta toda forma de orgulho humano, seja individual, nacional, político, econômico ou militar. O texto não foi escrito contra uma nação específica dos tempos modernos, mas contra a pretensão de qualquer poder humano que se considere autossuficiente diante do Senhor.

Se observarmos ao longo das Escrituras, encontraremos esse padrão repetidamente:

  • O Egito de Faraó acreditava ser invencível (Êxodo 5-14).
  • A Assíria confiava em seu poder militar (Isaías 10:5-19).
  • A Babilônia se gloriava de sua própria grandeza (Daniel 4:28-37).
  • Tiro depositava sua segurança em sua riqueza econômica (Ezequiel 28:1-10).
  • Roma considerava-se senhora do mundo (Apocalipse 17-18).

Todos receberam, em algum momento, a mesma mensagem: Deus é soberano, e nenhum poder terreno é absoluto. 

Por isso, uma leitura teológica do século XXI pode incluir os Estados Unidos, a China, a Rússia, a União Europeia, o Brasil ou qualquer outra potência global. Sempre que uma nação passa acreditar que sua força militar, seu poder econômico ou sua capacidade tecnológica garantem seu domínio permanente, ela incorre no mesmo erro denunciado pelos profetas bíblicos.

Nesse contexto, Salmos 46:10 continua extremamente atual. Sua mensagem poderia ser resumida da seguinte forma: “Nações da terra, parem de confiar em sua própria força e reconheçam que Deus continua governando a história”. Os mercados financeiros oscilam. Exércitos crescem e diminuem. Alianças internacionais são formadas e desfeitas. Governantes surgem e desaparecem. Mas Deus permanece no controle de todas as coisas.

Para a igreja, a mensagem é igualmente relevante. Os cristãos não devem depositar sua esperança definitiva em líderes políticos, partidos, ideologias ou superpotências. Nossa confiança deve estar no Senhor da história. 

Por fim, Salmos 46:10 continua tão necessário em nossos dias. Ele nos lembra que a história não é conduzida, em última instância, por presidentes, exércitos, mercados ou impérios, mas por Deus soberano que reina sobre tudo e sobre todos. 

O versículo é, ao mesmo tempo, um chamado à humildade para as nações e um convite à confiança para o povo de Deus. 

Isso não significa passividade ou acomodação. A Bíblia nunca incentiva a irresponsabilidade. O que Deus condena é a tentativa humana de viver como se tudo dependesse exclusivamente de nossas próprias forças. 

Existem momentos em que precisamos trabalhar, perseverar, lutar e tomar decisões difíceis. Porém, também existem momentos em que Deus nos diz: “Agora solte o controle”. Esse é o chamado para abandonar a ansiedade que tenta governar o coração.

É o convite para confiar quanto as circunstâncias parecem ameaçadoras. É a certeza de que Deus continua reinando quando nossas estratégias chegam ao limite. O salmo nos ensina que a fé madura não nasce quanto entendemos tudo o que Deus está fazendo. Ela nasce quando reconhecemos quem Deus é. 

Porque quanto o mundo treme, Deus permanece firme. Quando os reinos caem, Deus continua soberano. Quando os recursos acabam, Deus permanece suficiente. Quando a força humana falha, Deus continua sendo Deus.

A verdadeira paz surge quando deixamos de tentar ocupar o trono que pertence exclusivamente ao Senhor e descansamos na certeza de que Ele continua conduzindo todas as coisas para a glória do Seu nome. 

Parem de lutar e saibam que eu sou Deus”. Esse não é apenas um convite ao descanso.  É uma convocação para a confiança. É um chamado à rendição. É uma declaração da soberania daquele que reina para todo o sempre. Aleluia! 

Referências

KIDNER, Derek. Salmos 1–72: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2008.

CALVINO, João. Comentário dos Salmos. São José dos Campos: Fiel, 2009.

 

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Christós kyrios


domingo, 12 de julho de 2026

O Deus que vê e ouve

 

Está escrito no Salmo 34:15 (NVI)

Os olhos do SENHOR estão sobre os justos, e os seus ouvidos estão atentos ao seu grito de socorro

O Salmo 34:15, em sua concisão, revela uma profunda verdade teológica que ecoa através dos séculos, trazendo consolo e encorajamento aos corações crentes. Ele afirma não apenas a onisciência e onipresença de Deus, mas também Sua intervenção amorosa e protetora na vida daqueles que buscam viver em justiça. 

Esta não é apenas uma metáfora poética, mas uma revelação da natureza pastoral, presente e atuante de Deus – Ele vê e ouve. A partir dessa verdade, convido você a refletir sobre a vigilância divina, suas implicações práticas em nossa vida e como essa promessa permanece viva à luz de toda a Escritura.

O Salmo 34 foi escrito por Davi quando ele fingiu insanidade para escapar da morte diante de Abimeleque (1Samuel 21:10-15). Era um momento de extremo perigo e vulnerabilidade. Mesmo cercado pelo medo e pela incerteza, Davi escolheu louvar ao Senhor e convidou outros a experimentarem a bondade de Deus (Sl 34:8). Nesse contexto, o versículo 15 ganha mais peso: Deus não está distante no sofrimento – Seus olhos e ouvidos permanecem atentos aos que Lhe pertencem. 

Contudo, é importante notar que Davi não fala de uma vigilância genérica. Ele afirma que Deus está atento aos justos – àqueles que vivem em aliança com Ele, mesmo em tempos de aflição e perseguição. Não é metáfora. É realidade. Deus não apenas observa. Ele age.

Na Bíblia, os “olhos do Senhor” simbolizam Seu conhecimento absoluto e vigilância constante. Em Provérbios 15:3 lemos: “Os olhos do Senhor estão em toda parte, observando atentamente os maus e os bons”. No entanto, o Salmo 34:15 destaca que Seu olhar repousa de maneira especial sobre os justos – como um pai que observa com zelo seus filhos em perigo. 

O apóstolo Pedro reforça essa verdade em 1 Pedro 3:12 (NVI), em clara alusão ao Salmo 34:15: "Pois os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos atentos à sua oração, mas o rosto do Senhor está contra os que praticam o mal." Essa repetição no Novo Testamento sublinha a consistência da revelação bíblica sobre à natureza de Deus: Seu olhar sobre os justos é um olhar de favor, cuidado e providência.

Mas talvez você esteja se perguntando: quem é esse “justo” que atrai o olhar atento de Deus? Na Bíblia, o “justo” não é aquele de perfeição moral absoluta, mas aquele que vive pela fé, em humildade e sinceridade diante de Deus. É quem crê, mesmo sem entender tudo. É quem confia, mesmo chorando. É quem tropeça, mas se levanta buscando agradar ao Pai. Essa justiça é relacional: nasce do relacionamento com Deus não do desempenho. E quem vive por essa fé tem uma promessa: Deus está olhando. Deus está ouvindo. Deus está agindo. Como afirma o apóstolo Paulo: “O justo viverá pela fé” (Romanos 1:7; cf. Habacuque 2:4). 

Portanto, o “justo” é aquele que caminha com Deus, mesmo em meio a falhas e fraquezas, confiando na Sua graça e buscando viver segundo Sua vontade. Esses são os que recebem a promessa do cuidado vigilante de Deus. Essa justiça, uma vez recebida, impulsiona o crente a viver uma vida de forma que agrada a Deus – obedecendo aos Seus mandamentos e refletindo Seu caráter no mundo, por meio do amor ao próximo.

A segunda parte do Salmo 34:15, é ainda mais pessoal: “e os seus ouvidos estão atentos ao seu grito de socorro”, isso enfatiza a acessibilidade e a compaixão de Deus, que não apenas vê, mas também ouve. O “grito de socorro” sugere desespero, angústia, necessidade ou perigo – e a promessa é clara: Deus não é indiferente a tais súplicas. Essa dimensão da atenção divina é vital para a fé, pois assegura ao crente que suas orações não são em vão e que Deus não está alheio à sua dor. 

O teólogo Dietrich Bonhoeffer, em Salmo: O livro de oração da Bíblia, afirma que o clamor dos justos não é ignorado, mesmo quando a resposta parece tardia. Pode demorar, mas Deus responde – no tempo certo e da forma certa. Jesus reiterou esse princípio: “Peçam, e lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta” (Mateus 7:7). A resposta de Deus pode vir de formas inesperadas, mas Ele nunca é indiferente. Em Êxodo 3:7, Deus declara: “De fato, tenho visto a opressão sobre o meu povo no Egito e tenho escutado o seu clamor”. Essa passagem é uma confirmação direta da promessa do Salmo: Deus vê a dor do justo e ouve seu clamor. Aleluia!

O reformador João Calvino comentando sobre o Salmo 34:15, diz: “Os olhos e os ouvidos de Deus estão atentos aos fiéis, não apenas para observar o que fazem, mas para socorrê-los em suas tribulações. É uma forma de expressar que Deus nunca se afasta dos que O temem, mas os assiste com Sua providência”.

Charles Spurgeon, por sua vez, em The Treasury of David, acrescenta: “A vigilância de Deus é contínua; Seus olhos não se desviam nem por um instante dos Seus amados. Eles nunca estão fora do alcance do Seu olhar, e seus clamores nunca são em vão”. 

Agora, olhe ao seu redor. Que mundo vivemos: ansiedade, crises, incertezas. Um mundo barulhento, tenso, muitas vezes hostil à fé. Em meio a tudo isso, o Salmo 34:15 se torna uma âncora. Ele declara: você não está só. Deus sabe onde você está, vê o que você enfrenta, ouve o que ninguém mais ouve – seu clamor mais íntimo.

Primeiramente, este versículo oferece uma base sólida para a confiança e a segurança. Em uma era de ansiedade generalizada, onde as notícias geram medo e desespero, saber que os “olhos do Senhor estão sobre os justos” é um bálsamo para a alma. Isso não significa ausência de dificuldades, mas a certeza de que você não está desamparado – Deus vê conhece, cuida. 

Em segundo lugar, a promessa de que os “Seus ouvidos estão atentos ao seu grito de socorro” estimula uma vida de oração constante, sincera e confiante. Mesmo quando sentimos que Deus está distante, o Salmo 34:15 nos lembra: Ele está ouvindo. Ele responderá. Isso cultiva em nós uma dependência saudável de Deus e uma postura humilde diante d’Ele.

Finalmente, este versículo também é um chamado à justiça e à retidão. O benefício da atenção e do cuidado de Deus é prometido aos “justos”. Embora a justificação seja pela fé, a Bíblia sempre associa fé genuína a uma vida de obediência e busca pela retidão. Para o cristão contemporâneo, isso significa viver conforme os valores do Reino de Deus: praticar a verdade, a misericórdia, a integridade e o amor. Saber que Deus está observando não deve gerar medo, mas sim o desejo de honrá-Lo, sabendo que essa busca por justiça é o caminho para experimentar Sua presença e proteção.

Portanto, o Salmo 34:15, não é apenas uma bela afirmação poética – é uma verdade que sustenta a fé cristã. Ele nos lembra que temos um Pai amoroso e atento, que vê e age em favor dos que Lhe são fiéis. Em um mundo sedento por direção e sentido, este Salmo se ergue como farol. Ele proclama: o Deus do universo está atento à vida dos Seus filhos. O olhar atento e o ouvido compassivo de Deus oferecem o fundamento inabalável para uma vida de confiança, oração e justiça.

Então, não desista. Não silencie sua oração. Não pense que Ele te esqueceu. Os olhos do Senhor estão sobre você. E os ouvidos Dele, atentos ao seu clamor.

Ao contemplar essa verdade, descanse na soberania divina, busque a justiça em sua vida e persevere na oração, sabendo que o Deus que vê e ouve nunca o abandona.

Referências:

BONHOEFFER, Dietrich. Salmo: O Livro de Oração da Bíblia. Tradução de Martim Dreher. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1996.

CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Tradução de Waldyr Carvalho Luz. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. v. 1.

SPURGEON, Charles H. O Tesouro de Davi: Comentário Exegético e Devocional dos Salmos. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo: Shedd Publicações, 2012.

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Christós kyrios

domingo, 5 de julho de 2026

Quando Deus transforma tudo em propósito


Está escrito: “Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem de todos aqueles que amam a Deus, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” Romanos 8:28, NVI.

 

Poucos textos bíblicos oferecem tanto consolo em meio à dor quanto Romanos 8:28. Ao longo da história da Igreja, esse versículo sustentou cristãos perseguidos, enlutados, enfermos e desanimados. Ao mesmo tempo, é também um dos textos mais mal compreendidos das Escrituras. 

Muitos o interpretam como uma promessa de que tudo dará certo nesta vida ou de que Deus livrará seus filhos de todo sofrimento. Mas, quando lemos o texto em seu contexto, descobrimos uma verdade muito mais profunda, capaz de transformar a maneira como enxergamos nossas lutas.

Vale a pena deixar de lado o velho clichê do “calma, no final tudo dá certo”. Não é isso que Paulo está ensinando. O que ele faz aqui é construir uma das reflexões mais profundas das Escrituras sobre o sofrimento, a esperança e a soberania de Deus.

A Epístola aos Romanos foi escrita durante a permanência de Paulo em Corinto. Naquele momento, ele ainda não conhecia pessoalmente a igreja de Roma, mas desejava visitá-la para fortalecer os irmãos e apresentar uma exposição cuidadosa e sistemática do evangelho. 

Os cristãos daquela cidade viviam em um ambiente marcado por tensões políticas, conflitos entre judeus e gentios convertidos e perseguições ocasionais. Eles enfrentavam dificuldades reais, e Paulo sabia que dias ainda mais difíceis viriam pela frente. Em outras palavras, não eram pessoas vivendo uma fase tranquila da vida. Sofriam e precisavam compreender como Deus continuava agindo mesmo em meio às aflições.

É importante perceber que o versículo 28 não aparece isolado. Nos versículos anteriores, Paulo apresenta três grandes realidades. Primeiro, ele fala do sofrimento da criação – “Toda a criação geme...” (Rm 8:22). O mundo inteiro sofre os efeitos da queda (pecado). Dor, enfermidade, injustiça, morte e corrupção fazem parte da realidade humana.

Depois, ela fala do sofrimento dos próprios cristãos – “Nós mesmos gememos interiormente...” (Rm 8:23). Mesmo redimidos por Cristo, continuamos vivendo em um mundo quebrado. Também experimentamos perdas, limitações, enfermidades e tribulações. 

Por fim, Paulo apresenta a intercessão do Espírito Santo – “O Espírito nos ajuda em nossa fraqueza...” (Rm 8:26). Quando nem sabemos como orar, o Espírito Santo intercede por nós de acordo com a vontade de Deus. 

Somente depois dessa sequência Paulo declara que “todas as coisas cooperam para o bem”. Isso mostra que Romanos 8:28 não foi escrito para explicar momentos de prosperidade, mas para interpretar o sofrimento à luz da soberania de Deus.

É justamente no meio desse “coral de gemidos” - a criação gemendo, os crentes gemendo e o Espírito intercedendo - que Paulo introduz essa maravilhosa promessa. Ele não ignora a dor, ele oferece uma resposta para ela. 

Por isso, quando afirma: “sabemos que...”, Paulo não está expressando um otimismo ingênuo. Está afirmando uma certeza ancorada na fidelidade de Deus, mesmo quando vivemos em um mundo marcado pelo pecado.

Quando olhamos para o texto grego, essa compreensão se torna ainda mais rica.

A expressão “cooperam para o bem” traz a ideia de trabalhar em conjunto, colaborar, agir de forma coordenada. Isso significa que Paulo não está dizendo que cada acontecimento, isoladamente, seja bom. 

A Bíblia nunca afirma que a doença é boa, que a injustiça é boa ou que a morte é boa. O que Paulo afirma é algo infinitamente mais consolador: Deus é capaz de reunir até mesmo acontecimentos mais dolorosos e fazê-los servir aos seus propósitos redentores.

Perceba a amplitude da expressão “todas as coisas”. Ela inclui alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, saúde e enfermidade, abundância e escassez, tempos de paz e períodos de sofrimento. 

Nada escapa ao governo soberano de Deus. Isso, porém, não significa que Deus seja o autor do mal. Significa que Ele continua sendo Senhor sobre todas as circunstâncias. Um exemplo clássico é a história de José. Ele compreendeu essa verdade depois de muito anos de sofrimento. Vendido pelos próprios irmãos, injustiçado e preso, pôde finalmente declarar: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem” (Gênesis 50:20). 

O mal continuou sendo mal. A injustiça continuou sendo injustiça. Mas Deus conduziu toda aquela história para cumprir um propósito muito maior.

Mas, afinal, qual é o “bem” mencionado em Romanos 8:28? Aqui encontramos um dos pontos centrais do texto. Muitos associam esse bem à prosperidade, ao sucesso ou à ausência de problemas. Entretanto, basta continuar a leitura para perceber o verdadeiro significado. 

No versículo seguinte Paulo afirma: “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8:29).

O maior bem que Deus realiza em nossa vida não é necessariamente nos tornar mais confortáveis, mas mais parecidos com Cristo. Como observa John Stott, o propósito de Deus em Romanos 8:28 não é simplesmente tornar seus filhos mais felizes, e sim mais semelhantes a Jesus. Essa interpretação também é defendida por comentaristas como Douglas Moo, Thomas Schreiner e Jonh Murray.

Romanos 8:28 apresenta um equilíbrio extraordinário. Paulo não ensina que tudo acontece por acaso. Também não defende uma visão fatalista da existência. Ele afirma que Deus governa soberanamente a história sem anular a responsabilidade humana. As pessoas continuam fazendo escolhas reais, enquanto Deus continua conduzindo todas as coisas para cumprir seus propósitos eternos.

Há ainda um detalhe importante. Paulo não diz que essa promessa é para todas as pessoas indistintamente. Ela é dirigida: “...aos que amam a Deus” e “aos que foram chamados segundo o seu propósito”. Trata-se daqueles que pertencem a Cristo pela fé. Isso não significa que sejam pessoas perfeitas. Significa apenas que suas vidas estão orientadas para Deus, mesmo em meio às fraquezas, dúvidas e lutas.

A cruz é a maior demonstração da verdade de Romanos 8:28. Aos olhos humanos, a crucificação parecia a vitória definitiva do mal. Houve traição, injustiça, violência e morte. Contudo, Deus transformou o maior ato de perversidade da história no maior ato de redenção da humanidade. Como declarou Pedro: “Este homem lhes foi entregue por propósito determinado e pré-conhecimento de Deus” (Atos 2:23). Se Deus transformou a cruz em salvação, também pode transformar nossas dores em instrumentos da sua graça.

Quando enfrentamos uma enfermidade, uma crise familiar, uma injustiça ou um fracasso, nossa primeira reação costuma se perguntar: “Por que isso está acontecendo comigo?” Mas, Romanos 8:28 nos convida a fazer uma pergunta ainda melhor: “Como Deus pode usar essa situação para cumprir os seus propósitos em minha vida?” 

Nem sempre compreendemos imediatamente o que Deus está fazendo. Confesso que ainda hoje não entendo plenamente algumas das experiências mais difíceis que vivi. Mas, quando lembro que José precisou esperar muitos anos para compreender os caminhos de Deus e que Jó atravessou longos períodos de sofrimento sem receber explicações imediatas, meu coração encontra descanso.

A providência divina, muitas vezes, só pode ser percebida quando olhamos para trás. A nossa fé não está apoiada na compreensão completa dos acontecimentos, mas na confiança no caráter de Deus.

Romanos 8:28 não promete uma vida sem lágrimas. Promete algo maior: promete que nenhuma lágrima será desperdiçada. Que nenhuma dor será inútil. Que nenhuma circunstância escapará das mãos do Pai.

Por isso, mesmo quando não compreendemos os caminhos do Senhor, podemos descansar na certeza de que Ele continua trabalhando. 

Nos bastidores da nossa história, Deus está tecendo uma obra que ainda não conseguimos enxergar por inteiro. Um dia, porém, veremos a beleza de seu propósito revelado.

Agostinho de Hipona resumiu essa verdade de forma memorável: “Deus não permitiria o mal se não fosse poderoso o suficiente para dele fazer surgir um bem maior”. Essa é a esperança que nos sustenta em qualquer circunstância: Deus continua no controle, e seu propósito jamais falhará.

 

Referências:

STOTT, J. A mensagem de Romanos: A Bíblia fala hoje. São Paulo: ABU Editora, 2007.

 

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