Está escrito:
“Antes, vocês estavam separados de Deus e eram inimigos dele por causa da disposição interior e do mau procedimento de vocês. Contudo, agora ele os reconciliou pelo corpo de Cristo, por meio da morte, para apresentá-los diante dele santos, sem culpa e livres de toda acusação” Colossenses 1:21-22 (NVI).
Esse trecho é, sem exagero, um resumo concentrado do evangelho. Paulo não começa falando de autoestima, nem de potencial interior ou realização pessoal. Ele começa com uma realidade espiritual dura, mas necessária: antes de Cristo, o ser humano está separado de Deus, vive como inimigo, tem a mente afetada pelo pecado e isso aparece em atitudes concretas.
Mas então vem a virada que muda tudo: “Contudo, agora...”. A reconciliação não nasce do esforço humano, nem de uma reforma moral feita “na raça”. Ela nasce de um ato real, histórico e físico: a morte de Cristo no corpo. E o objetivo dessa obra não é apenas um perdão “jurídico”, como se Deus apenas arquivasse o processo. O texto aponta para um resultado completo: Deus nos apresenta diante dEle santos, sem culpa e livre de acusação.
Paulo escreve isso para cristãos que estavam sofrendo pressão de ensinos que diminuíam Cristo. Como se Jesus fosse “um caminho entre outros”, ou como se fosse necessário complementar a salvação com rituais, práticas especiais ou uma espiritualidade mais sofisticada. Colossenses responde isso com uma martelada santa: Cristo é suficiente.
Colossenses 1:15-20 é um dos textos mais altos sobre Jesus em todo no Novo Testamento. Ali Paulo afirma que Jesus é: a imagem do Deus invisível; o primogênito sobre toda a criação; o Criador de todas as coisas; o Sustentador de tudo; o Cabeça da Igreja; o primogênito dentre os mortos e aquele por meio de quem Deus reconciliou todas as coisas.
Então, quando chegamos em 1:21-22, Paulo faz a aplicação pessoal: “E vocês...também”. Ou seja, a reconciliação cósmica do verso 20 chega no indivíduo real, com nome, história e feridas. O evangelho não é teoria. É história que toca gente. Vamos por partes:
1. “Antes, vocês estavam separados de Deus” (v.21). Aqui Paulo não fala de uma distância emocional, como se Deus estivesse longe e a gente só precisasse “se conectar com o universo”. A separação é real: espiritual, moral e profunda. Não é “Deus distante”. É nós afastados. Alguns textos bíblicos reforçam essa verdade: Isaías 59:2 – “as suas maldades separam vocês do seu Deus” e Romanos 3:23 – “todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus”. Paulo não descreve o ser humano como alguém “confuso que precisa de direção”. Ele descreve como alguém em ruptura com Deus, que precisa de reconciliação.
2. “E eram inimigos de dele” (v.21). Esse é um dos trechos mais forte do texto. Paulo não diz que éramos neutros, desconectados ou apenas indiferentes. Ele diz: inimigos. Isso não significa que todo mundo sente ódio consciente de Deus. Mas significa que, por natureza, existe oposição à autoridade divina. Essa mesma linguagem aparece em: Romanos 5:10 – “quando éramos inimigos, fomos reconciliados...”; Romanos 8:7 – “a mente da carne é inimiga de Deus” e Tiago 4:4 – “amizade com o mundo é inimizade com Deus”. Aqui Paulo quebra uma ilusão moderna: muita gente acha que o problema do ser humano é falta de informação. Paulo diz: o problema é rebelião interior. E isso sim, alcança diretamente o homem contemporâneo.
Talvez você esteja pensando: “Então quer dizer que o homem moderno vive uma disposição mental de rebelião contra Deus, mesmo sem perceber? Sim, é exatamente isso. E não no sentido caricato de alguém acordar dizendo: “Hoje vou odiar Deus”. Não é isso. É algo mais profundo e mais sutil:
- A inimizade com Deus pode ser inconsciente. A pessoa pode se achar “do bem”, religiosa, espiritualizada, correta... e mesmo assim viver em autonomia: “eu mando na minha vida”. Pode viver em autojustificação: “sou bom o suficiente”. Pode relativizar o pecado: “não é tão grave assim”. E pode resistir à autoridade de Deus: “não preciso me submeter”. Isso é rebelião, só que com roupa elegante.
- Muita gente não odeia Deus: apenas ignora. E isso também é inimizade. É o coração dizendo frases como: “Eu acredito em Deus, mas do meu jeito”; “Deus quer que eu seja feliz, então...”; “Toda religião salva”; “Não preciso de cruz, só de propósito” ou “Não acho que eu seja pecador”. No fundo, é uma fé sem rendição. É como se a pessoa dissesse: “Aceito Deus com conselheiro, mas não como Senhor”.
- Paulo liga mente e prática. O texto é completo: “inimigos...por causa da disposição interior e do mau procedimento.” Ou seja, a rebelião interior não é apenas filosofia. Ela aparece na vida. De formas bem comuns: viver sem oração e sem dependência, como se Deus fosse opcional; decidir sozinho o que é certo e errado; amar o pecado e chamar isso de liberdade; rejeitar arrependimento porque “isso é culpa religiosa” e fugir de Cristo como único Salvador porque “isso é exclusivista”.
Estou escrevendo isso não é para humilhar ninguém. É para explicar por que a humanidade, mesmo com tanta cultura, ciência e informação, continua: fugindo de Deus; chamando pecado de virtude; se destruindo por dentro e resistindo ao evangelho.
Mas o texto não termina na rebelião. Termina na reconciliação. E aqui está a beleza: Deus não responde à nossa inimizade com abandono. Ele responde com cruz. Se a inimizade era interior, Deus cura por dentro. Se a separação era real, Deus faz paz real. Se a culpa era verdadeira, Deus remove a acusação. Isso ecoa no Novo Testamento inteiro: em Romanos 3:21 – “Mas agora...se manifestou a justiça de Deus” e Efésios 2:4 – “Mas Deus, sendo rico em misericórdia...”
O texto diz que Deus nos reconciliou “pelo corpo físico de Cristo, por meio da morte”. Ou seja: Cristo foi realmente humano; a cruz foi um evento real; a salvação não é símbolo, é um sacrifício histórico. E isso se alinha com: João 1:14 – “o Verbo se fez carne” e 1 João 4:2-3 confessar que Jesus veio em carne é critério de verdade.
John Stott insiste numa coisa essencial: a cruz não é só demonstração de amor. É também satisfação de justiça. A reconciliação não acontece por sentimentalismo divino, mas por um ato em que Deus leva o pecado a sério.
Agostinho também ajuda aqui ao lembrar que a vontade humana está inclinada ao mal. Ou seja: a reconciliação não nasce da autonomia. Ela nasce da graça.
Finalmente, agora vem a parte que pega na vida. O evangelho cura nossa identidade, porque muita gente vive hoje com a sensação de que nunca é suficiente. Sempre devendo. Sempre falhando. Como se Deus tolerasse, mas não amasse. Colossenses diz o contrário: você foi reconciliado para ser apresentado diante de Deus santo, sem culpa e livre de acusação. Isso muda o coração.
Além disso, o evangelho desmonta a espiritualidade de performance. Se Deus nos reconciliou “pelo corpo físico de Cristo, por meio da morte”, então não foi minha disciplina, nem minha força, nem meu histórico na igreja, nem minha teologia impecável. Foi Cristo. Isso produz descanso e humildade ao mesmo tempo.
E o evangelho também nos chama para transformação real. Paulo lembra que a separação antiga era por causa do “mau procedimento”. Ou seja: quem foi reconciliado não vive em paz com o pecado. A graça não é permissão para viver de qualquer jeito. A graça é poder para viver diferente.
E quanto às acusações? Colossenses é um remédio direto para um dos tormentos mais comuns da alma: a acusação. Hoje as acusações vêm de vários lugares: do diabo (o acusador), de pessoas; da própria consciência e de traumas e culpas antigas. Mas, o texto diz: “livres de toda acusação.” Isso não significa “nunca errarei”, mas significa: quando eu erro, eu corro para Cristo. Eu não me escondo de Deus como Adão fez. Eu volto para a cruz.
Quem foi reconciliado com Deus não pode viver alimentando guerra eterna com os outros. Paulo conecta isso em outros textos: Efésios 4:32 – “perdoando...como Deus os perdoou” e Colossenses 3:13 – “assim como o Senhor perdoou vocês...” A reconciliação vertical se torna reconciliação horizontal.
Por fim, Colossenses 1:21-22 nos coloca diante do evangelho em estado puro: nós éramos inimigos, separados, corrompidos por dentro e por fora. Mas Deus, em Cristo, entrou na história, assumiu um corpo, morreu de verdade e reconstruiu a ponte que nós mesmos quebramos.
E o objetivo não é apenas nos tirar o pecado, mas nos levar para a presença do Pai com uma nova identidade: santos, sem culpa e livres de acusação. O evangelho não é só perdão. É reconciliação. E reconciliação não é só paz. É nova vida.
Sola Scriptura - Solus Christus - Sola gratia - Sola fide e Soli Deo glória
Christós kyrios

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